A
agricultura,
o agenciamento das culturas e a última morte da agricultura
por Luís Carmelo
professor de Semiótica e Teoria da Cultura e investigador
na área da filosofia da comunicação
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[foto: Edgar Martins]
A actual palavra ‘cultura’
deriva do latim “colere”
que, há dois milénios,
significava ‘cultivar’ e andava associada à
ideia de ‘tratar da’ terra e dos animais, num
sentido relativamente neutro. Com o tempo, o termo –
que deveria proceder e intertextualizar uma mitologia oral
pós-neolítica - foi-se substancializando através
de novos conteúdos. O tipo expressivo de raiz agrícola
manter-se-ia em regime de ratio
facilis até aos nossos dias,
no momento em que profundas alterações passaram
a afectar esta fecunda memória dos gestos e acenos
que sempre ligaram o homem à terra.
Um primeiro sentido de teor eminentemente secular (Plutarco,
Cícero, etc.) remeteu, por conotação,
para a ideia de cultivo do ‘espírito humano’.
Este entendimento da riqueza subjectivista equivalia à
‘alma cultivada’ pelo fruto da sabedoria (o conhecimento
pessoal de cariz retórico, poético, filosófico,
jurídico, etc.) e correspondia metaforicamente aos
movimentos do arado num prado, também ele invicto e
por cultivar. Esta terá sido a primeira adequação
semântica à palavra original ‘cultura’,
realizada a partir do étimo latino de natureza agrícola
que havia de se projectar até aos nossos dias em significações
como “desenvolvimento intelectual’, ‘saber’,
’estudo’, ’esmero’ e ainda ‘elegância’.
Um segundo sentido da palavra cultura decorreu da teo-semiose
de Santo Agostinho que transpôs o conceito de
‘culture animi’
da cultura subjectivista para o paradigma divino. A nova formação
semântica teve uma vida intensa e acabou por associar,
também até aos nossos dias, o uso da ‘cultura’
(que mantinha ainda um claro rasto agrícola) ao uso
do ‘culto’.
Um terceiro sentido surgiu no Iluminismo por via do alemão
G. Herder. A nova visão celebrada através do
neologismo latino “Kultur”, acabaria por actualizar,
no interior da língua alemã (em Ideen
zur philosophie der geschite del Menschheit
–1784-91/1959 [1]
) uma nova vocação para a palavra: “Partindo
do cultivo agrícola, podemos designar por cultura a
génese que abarca o todo da vida humana” (1959,
p.123). Esta noção moderna de cultura assentava
na objectivação da totalidade do produto humano
realizado, independentemente dos seus autores subjectivos.
Nesta perspectiva, a imaterialidade e a materialidade historicamente
acumuladas por uma dada comunidade (língua, terra,
tradição, objectos ‘culturais’,
etc.) passavam a ser encaradas como obra do homem, isto é,
como os produtos e a substância da sua própria
cultura [2]. Herder reinventou
o termo ‘Kultur’ para se distanciar da palavra
‘ausbildung’, carregada ainda de implicações
subjectivistas. Semelhante ideia de cultura surgira já,
anos antes, plasmada noutros lexemas diferenciados, tais como
nas expressões “século” - utilizada
por Voltaire em Le siècle
de Louis XIV (1751) - ou “civilização”,
utilizada por Mirabeau [3].
Estes complexos processos de objectivação, que
abrangem o final de setecentos e o início do século
seguinte, tendem a elidir a agência particular e criadora
de obra humana em benefício do novo todo abstracto:
a cultura. As obras
passam, segundo esta nova visão, a ser o resultado
de uma tradição colectiva e geral e, em última
análise, de uma hipostasia intersubjectiva da nova
quase-divindade: a cultura (a criação de museus
e arquivos, o modo como a fotografia foi entendida na sua
primeira era, as pesquisas etnográficas, as recolhas
de lendas e tradições tão caras aos românticos
são sintomas desta época feérica de reinvenção
da ‘cultura’).
Um quarto sentido de cultura, que está a ser desenvolvido
na contemporaneidade, escapa pela primeira vez à referência
forte de matiz agrícola.
Segundo o semiótico A. Mchoul (1996, pp. 47-53 [4]),
ao contrário da visão moderna, a história
deverá ser, hoje em dia, encarada como um esteio policentrado,
livre de estruturas fixas subjacentes e não centrado
territorialmente:
Comunidades como quaisquer colectivos que se reúnem
(fisicamente ou por outros meios) para actividades semióticas
relativamente comuns (incluindo as não consensuais).
Um comunidade pode ser um agrupamento tradicional, como por
exemplo um grupo de praticantes religiosos que se reúne
regularmente para orar em comum. Mas também pode ser
um grupo menos formal, unido por afinidades relativamente
ténues, como os Trekkers —fãs
dos filmes e da série televisiva Star Trek
[…]. Uma comunidade envolve, pois, quem quer que (colectivamente)
lida — metodicamente — em conjunto com os factos,
o que pode estar conforme com o que entendemos por expectativas
colectivas (idem, pp. 49-51).
Nesta concepção, os membros da comunidade são
sobretudo considerados como “course of activity recognizable
for its directionality”, assente num princípio
de afinidade e cooperação, independentemente
dos agentes subjectivos que protagonizam a actividade e dos
locais onde se encontrem. Os participantes dos ‘newsgroups’,
da prática de surf, da ocorrência bolsista, dos
acontecimentos da vida local, da noite, dos blogues ou da
exclusão integram, nesta óptica, diferentes
comunidade globais.
Factores que no início da modernidade foram vitais
para a definição de noção de ‘cultura’,
tais como as línguas naturais e a própria tradição,
surgem agora reconfigurados.
O pressuposto de A.Mchoul baseia-se, como o próprio
refere, numa “Heideggerian-Nietzschean version of history”,
cuja arena de eventos tem como anfitrião apenas o vasto
território do presente.
Subitamente, as conectividades da rede, as representações
diagramáticas e outras formas de complexidade, que
evoluíram sigilosamente desde a cibernética
até à hiper-realidade protética em que
vivemos, passaram a estruturar os conceitos que pressupõem
os novos espíritos gregários e as novas partilhas
significativas globais.
Esta é – ou será – a última
morte da agricultura de que temos notícias. Pelo menos,
da agricultura como ‘topic’ ancestral formador
de paradigmas onde o essencial se jogava: o saber, o culto
e a auto-imagem colectiva e territorial.
O que será a memória agrícola dos novos
‘being-in-common’?
A pergunta fica no ar como um leme apeado da sua viagem aventurosa.
Por mim – permita-se-me a inscrição da
primeira pessoa na última linha - não aspiro
a nada do que já foi: niilismo face aos passadismos
e optimismo face ao desconhecido.

[1]
J.Herder, 1979, Ideas para uns filosofía de la historia
de la humanidad, Losada, Buenos Aires.
[2] G.Bueno,
1996, El mito de la cultura, Editorial Prensa Ibérica,
Barcelona.
[3] Em
Le monde, son origine et son antiquité (1751 - em 1995,
p.333, Org. J. Yolton, R.Porter, P.Rogers e B.Stafford, Enlightenment,
Blackwell Pub.Inc.,Oxford/U.K, Cambridge, Massachusetts/U.S.A).
[4] A.McHoul,
1996, p. 47-53 e 57-64, Semiotic Investigations -Towards na
Effective Semiotics,University of Nebraska Press, Lincoln
& London (leia-se “Pensar a história de modo
Nietzscheano é evitar uma concepção da
história baseada na identidade e presença de
cada evento com respeito a uma estrutura subjacente e necessária,
um sistema, finalidade, Espírito ou gramátca.
É, para evocar Derrida, pensar a história sem
um centro particular — o mesmo é dizer, pensar
a história com muitos candidatos a centros” p.7).
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