Juncadas
de folhas e de flores
José Rodrigues dos Santos
sociólogo, antropólogo, investigador
da Academia Militar de Lisboa e do Centro Interdisciplinar de História,
Culturas e Sociedades (CIDEHUS) da Universidade de Évora
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[ foto: Maria Carapeto]
Évora / 1 de Julho de 2006
Texto escrito para “Ervas & Aromas”, de A. Vasques
Dias
Desde a mais alta Antiguidade, um pouco por toda a Europa, mas ao
que parece com maior intensidade no Sul, as grandes festas do antigo
calendário agrário eram marcadas por rituais que evocavam,
de modos diversos, a reunião do selvagem e do cultivado, do
espaço natural e do humano.
Assim acontecia, no que era o verdadeiro início do ano, em
Março, nas festas do Equinócio que assinalavam a ressurreição
da vegetação e viriam a dar outras Páscoas. Assim
também no Solstício que dava o sinal do início
do Verão, e suscitava, em finais de Junho, as festas da Luz
que o São João consagrou; no Equinócio de Outono,
que em Setembro, com o declínio dos dias, acolhia as festas
das colheitas e dos frutos. Assim se fazia, por fim, nas Saturnais
que haveriam de ser vestidas de natais, para conjurar as Trevas e
apelar ao regresso da Luz.
Para as fachadas das casas, os pátios, as ruas, eram trazidas
as plantas que, por pertencerem aos espaços exteriores, transportavam,
com os seus cheiros e perfumes, o selvagem para o coração
dos espaços domésticos. Os humanos cobriam-se de folhagens,
como, da Suíça à Roménia, os "Homens
Selvagens", sorte de Ursos vegetais simbolizando o Urso, e o
seu acordar no fim do Inverno.
Os ramos de plantas e árvores, as sempre-verdes e as aromáticas,
eram espalhados em tudo o que era empedrado ou calçada, ladrilho
ou terreiro. Do rico tapete libertavam-se, sob os passos das gentes,
os poderosos odores amargos das giestas, os perfumes doces das rosas,
os sabores ácidos das alfazemas.
Assim acontecia também nos cinco cantos de um Portugal rural,
que lentamente se desfaz. Festas e arraiais, cortejos, procissões,
eram precedidas pelo cuidadoso vestido de verduras e palhas, pela
profusão de ramos em arcos, colunas e guirlandas, em juncadas
de pétalas e de ervas, que, trazendo até aos humanos
todo um povo de plantas selvagens, iriam, ao acolher os seus passos,
renovar a aliança.
A re-união que esses espaços juncados de folhagens celebrava,
encontra o seu analogon no seio do próprio mundo selvagem,
onde os enxames dos insectos polinizadores anseiam, voam, bebem, se
absorvem no encontro com outro universo de miríades, o das
flores, semelhante a um enxame ligado à terra, tenso em mudo
mas eloquente apelo odorífero e cromático ao seu vital
complemento animal.
Celebrar uniões num mundo como o nosso é mais que ingenuidade.
É reconhecer o papel essencial da diferença, da separação,
da falta que faz a cada meio-mundo outro meio mundo, como ao masculino
o feminino e sem dúvida, também a este, aquele.
Do confuso do incerto, do improvável, emerge, sob a força
irrepressível do desejo, o encontro, ou, muito mais precisamente,
um longo, múltiplo, incontável universo de minúsculos
encontros, que são, para cada flor, para cada insecto, a justificação
de uma pequena vida. E para nós.
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