Sílvia Pinto Ferreira
encenadora, escritora e investigadora de dramaturgias contemporâneas
[ foto: João Bragança]
Daqui Da terra De um pedaço de mundo De um latifúndio
da memória
Escava-se um buraco rega-se até transbordar
Um pequeno monte à beira de um lago profundo de águas
lamacentas e paradas - Papas de terra borbulhantes Creme divinal
Uma mão mergulha na água e salpica o pequeno monte A
outra revolve As duas mãos amassam até ficar no ponto
- Massa térrea
Um bolo - húmido castanho brilhante – acabado de enformar
– perfeito – candura dos sentidos
desenforma
mexe
remexe
e volta a enformar
e a desenformar
e amassa
e enrola
e calca
e arredonda
e
Uma tarte polvilhada de poeira - toca ao encanto
parte-se
reparte-se
reúnem-se as partes
Rola a amálgama entre as mãos de um lado para o outro
espalma-se divide-se em pequenas bolas berlindes anafadas que rebolam
pelo chão
Um campo de bolinhos areados a torrar ao sol
Bolinhos secos – torrões doces
Quem não comeu da terra não despertou o âmago
do paladar
Áspera Pedregosa Legítima
alimento visceral