
1.
CRIAÇÃO
PRIMEIRO ANCIÃO:
Ponho palavras na minha cabeça.
Uma, duas. Lentamente. Olho a terra seca. Por entre trilhos onde
um dia já houve água encaminho uma, duas palavras.
Um caminho. Um mundo possível.
Ponho palavras na minha cabeça. Desenho-lhes trilhos. Explosões
químicas. Fulgurações eléctricas. Mapas
de fome. Possibilidades de alimentos.
SEGUNDO ANCIÃO:
Os teus pés não marcam
o chão. Apenas uma leva poalha digital. Nenhum caminho para
te seguir. O teu alimento virá apenas por ti.
A cor da terra cega-te. Desenhas círculos cegos. Tornas-te
o centro cego desta terra queimada pelo sol. Uma, duas palavras
são apenas pistas por entre palavras ainda longínquas.
TERCEIRO ANCIÃO:
Uma vez a terra era muita e não
se via o fim. Era o tempo em que as serpentes ainda desenhavam mapas.
Veio a água do princípio do universo e as serpentes
tornaram-se finas redes. Os homens já lá estavam sem
saber. Rodeados de terra, as sementes futuras nas mãos fechadas.
Abri-las e deixar as sementes. Fechá-las e colher os frutos.
Pode ser esta a maneira de começar o nosso mundo. As palavras
começam os mundos. Este pode começar assim –
uma terra imensa e vazia abandonada pelas serpentes para os homens
nela criarem terra desdobrada em filhos e alimentos. Poucos.
2. MUNDO
SER #01:
Eu digo-te: vai aprender a ver
a terra, vai aprender a unir-te com ela. Vai aprender a seres terra.
SER #02: Eu
digo-te: vai aprender os movimentos que fazem da terra o teu ganha-pão.
Vai esforçar-te para seres o homem que ainda não és.
SER #03:
Eu digo-te: vai cheirar a terra
e os frutos. Vai aprender o movimento dos teus braços em
volta do trigo alto. Vai aprender a vergar a coluna até seres
máquina.
SER #04:
Eu digo-te: vai aprender a não
olhar o sol. Vai aprender a seres apenas silhueta negra na imensidão
amarela e brilhante.
SER #05:
Eu digo-te: vai aprender a seres
muitos. Vai aprender a dor e a cantar.
3. PESSOAS EM BUSCA (estórias) [excertos]
MULHER DE NEGRO NUMA JANELA:
Falam muito alto, estes homens, quando vêm do trabalho nos
campos e trazem nos bolsos menos do que quando partiram. Um diz:
Lá está a Ti Gerúndia
à janela sem fazer nada, já lhe devem doer os cotovelos!
E os outros riem, coitados. Amanhã outro homem há-de
repetir isto, ou parecido. O meu homem que Deus tem talvez dissesse
o mesmo quando via uma viúva à janela. Eles vão
aos campos trabalhar por quase nada e gastam-se por quase nada,
muito trabalho deitado fora, às vezes nem um punhado de trigo
nasce do seu trabalho. Eu gosto de estar aqui, a juntar forças
para suportar os anos de viúva de um homem que morreu a trabalhar
por quase nada. Aos que ainda acreditam na terra-mãe ofereço
um dádiva à Senhora de Aires. Aos jovens que já
desistiriam nem um milagre os salvará. Já os meus
avós sabiam disto. Gosto da minha janela, da madeira dela
que quase faz parte de mim. Gosto. E os homens não sabem
por quê.
[…]
MULHER DO CABELO LONGO:
Quatro mil duzentos e sessenta e oito dias. Neste tempo pensei-me
cada dia mais perto de Ti, meu Deus, mas em cada dia foi também
maior o sentimento de nunca conseguir chegar a Ti. Cada dia de desejo
por Ti, meu Deus, sofri na pele da minha cabeça o crescimento
de cada milionésimo de milímetro de cabelo por Ti,
em direcção a Ti. Quanto mais o meu cabelo me cobriu
as costas quase até aos pés, mais alto subiu o meu
amor em Tua direcção. Pensei sempre que o meu enorme
pecado foi tão grande que nenhum sacrifício, nenhuma
oferenda de mim poderia ser bastante para obter o Teu perdão,
para conseguir o Teu amor. Agora que o meu longo cabelo de quatro
mil duzentos e sessenta e oito dias jaz aos meus pés cortado
pela Tua vontade Divina sei, sei, que nunca o meu cabelo poderia
crescer em direcção ao Teu perdão, ao Teu amor,
meu Deus!
[…]
HOMEM-BAILARINO:
Talvez este seja o meu último movimento. Pequeno. Insignificante.
Quase nada. Um insignificante gasto de energia. Este dedo da mão,
este pequeno dedo da minha mão esquerda a separar-se lentamente
do que lhe está mais próximo, lentamente. Não…
Mais uma pequena peça partida deste pobre corpo… Alimento
desperdiçado… Por cada pedaço de comida a mais,
mais uma peça partida desta máquina demasiado imperfeita
para ser música…
Carlos Alberto Machado, Évora, 16-24 de Fevereiro de 2006
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