As
tias mortas
Miguel Manso
As tias mortas, de Miguel Manso,
apontam esta crónica ao universo de memórias a que
pessoas, cheiros e lugares estão inelutavelmente ligados.
O texto foi previamente publicado em largodokarma.blogspot.com
Miguel Manso nasceu em Santarém, no ano da graça de
1979. Vive em Lisboa, estudou desenho no AR.CO, escreve e fotografa.
É Técnico de Biblioteca e Documentação
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[ foto: Miguel Manso]
Tirando as da escola, a minha infância não teve janelas
de guilhotina. Mas assomavam delas vultos negros, despenteados, brincos
prateados pendendo de lóbulos flácidos. Eram as tias
no escuro das casas, nas certas horas em que por motivos insondáveis
se retiravam. As famílias têm-nas pontilhando como galhos
partidos a árvore genealógica, pois muitas são
das solteiras, que envelhecem entre escarros e padres-curas, adormecendo
nas novelas. As minhas, muitas, já se finaram e foram a enterrar
em tardes de chuva, escoltadas por uma pequena multidão de
sobrinhos. Não sei se foram com os pechisbeques mas levaram
vestidas as blusas com que iam de Tupperware
aos casamentos. As minhas tias mortas. Lembro as minhas tias e consigo
cheirar em esforços de relembrança essa água-de-colónia
das rebajas badajoenses com que ensopavam os colarinhos. Nunca ninguém
deu por ter passado por elas um dia a juventude, por ter havido antes
sorriso belo onde depois cresceu bigode frondoso.
E havia, no ecossistema que as sustentava, cozinhas cheirando a xarope
de cenoura, roseiras torneando pátios, limoeiros onde à
sombra nos entretínhamos entre risinhos e sussurros de vida
alheia. Tudo isso enquanto nos recantos místicos do quintal
ia crescendo o musgo dos presépios. Ao mesmo tempo que eram
velhas e solteiras, algumas tias ainda as conheci com a mãe
doente, de quem tomavam conta como quem toma conta de um filho que
não souberam ter, e nesse trabalho dedicado às mães,
doentes de dez tromboses, esmeravam-se em virtuosismos no manejar
de penicos e clisteres.
Nunca nos deixavam usar a retrete principal que era para as visitas
importantes que não tinham. Usávamos em vez dessa uma
latrina de azulejos brancos onde mal cabiam as nossas cólicas.
Também nunca nos sentávamos na sala de jantar que era
quarto de dormir de alguns retratos com pó. Sobre os retratos,
esses e todos os outros, não é exagero dizer que qualquer
um no poder dessas tias, quase que ganhava jeito de relíquia
e o retratado (mesmo sendo vivo) subia ao estatuto de santo, irmanando
tetricamente com as imagens dos santinhos oficiais das suas predilecções.
As velhas tias desse eterno estado novo eram gente sozinha que vivia
a sua solidão entre velas e suspiros. Adormeciam com o ouvido
nos programas nocturnos da rádio, naqueles em que se dá
voz a outros solitários – senhoras carpindo a sua enorme
insónia em apaixonados mas monocórdicos telefonemas.
Havia também as missas com lugar marcado, a reformazinha todo
o santo mês, a caça obstinada ao produto mais barato
do mercado, a lágrima em certo capítulo do romance,
o pensar alto próprio dos aluados. Havia, acima de tudo, umas
mãos que encarquilhavam pelos dedos, e uns olhos de uma beleza
esquecida – as tias sofriam de uma solidão tão
grande como a sua virgindade branco-pérola.
Arroz de feijocas nos almoços com as tias, Coca-Cola desgaseificada
empurrando as pataniscas, papo-secos de ontem, peros debulhados com
facas de lâmina comida pelo tempo redondo e óxido. O
cantante mal sintonizado em cima do frigorifico. A cozinha por onde
entrava um gato sujo e estremunhado de dormir na terra dos canteiros,
os olhos remelosos de gato sem nome esperando o que sobrasse das pataniscas
na entrada da cozinha. A mesa redonda onde nos sentávamos à
volta esperando que a tia nos trouxesse o comer em doses frugais mas
repetidas. Comíamos o comer embalados por um locutor de província
e por fados de faca e alguidar.
Morria-se sempre mais no fim dos almoços. As tias promoviam
as sestas. Despromoviam as correrias no quintal, os puxares de rabo
de gato, as subidas aos limoeiros, o espreitar para dentro do poço
(onde se escondiam as húmidas tágides). As tias esmoíam
o almoço encostadas a gordas almofadas, recostadas na vida.
Ressonavam durante largos momentos de braços cruzados como
quem acomoda o corpo à eternidade. As tias diziam, quando
eu morrer, diziam, quando eu morrer
vais lembrar-te, vais ver que a tua tia tinha razão,
e diziam também, a tua tia já
não dura muitos anos. Viviam as tias na eminência
da morte e tinham já tudo acertado com os seus santos –
horas e horas de ajoelhada conversação.
Donas de pudicas bruxarias, as tias sabiam rezas profanas e ancestrais
com fuminhos de carqueja e jasmim e gestos ciciados junto ao enfermo.
Dores na virilha, enxaquecas, afrontamentos, dores de amor, dores
de corno, as tias faziam o ritual debaixo do telheiro para não
serem vistas pelas vizinhas. As estações do ano: tardes
de calor modorrentas, manhãs de chuva outonais, noites frias
de Inverno, em todas elas a recomendação de não
vás lá para fora por mor do calor da chuva do frio.
As tias aprenderam a voar com as andorinhas de louça penduradas
na cal dos seus muros.
Naperons por cima das cómodas, as contas do terço penduradas
num dos pináculos da cama, caixas de remédios auto-prescritos
em cima da mesa-de-cabeceira, pomadas dentro das gavetas, arcas com
roupa roída pela traça e pela memória, a nossa
senhora florescente de fátima ao pé do espelho tisne,
as persianas deixando frestas para a luz triste e perfumada das laranjeiras,
uma mulher sentada numa ponta da cama, as mãos brancas sobre
o colo, uma respiração animada por um choro profundo
insondável, a média penumbra do quarto, um rosto de
olhar no tecto e no silêncio, um rosto ganhando expressão
e consciência, uma mulher sozinha no mundo, de cabelos brancos,
de testa enrugada, de ombros caídos derrotados, um vestido
de primavera com flores pequenas estampadas, um fio dourado na tensão
do pescoço, uma golfada de lágrimas inesperadas, um
corpo que se levanta para morrer no tapete.
Visito as casas agora desabitadas, pilhadas por uma pequena multidão
de sobrinhos. Entro no Verão do quintal, onde hiberna um limoeiro
seco. Abro a torneira do contador da água e desenrolo a mangueira.
Rego as árvores do quintal sem pensar em nada. Mato a sede
das árvores da tia morta. Não vejo o gato, não
há rosas nos canteiros, descobre-se o laranja dos tijolos por
baixo da cal esmorecida, não sei das andorinhas de louça.
Componho a corda na roldana do poço, faço descer o balde
até tocar a água, o balde enche, subo-o pesando na velha
roldana que guincha a cada puxar dos braços. Apoio o balde
no cimento e ajoelho-me. As mãos entram na água fria
e é como uma redenção, levo a água à
cara e ao cabelo, sorrindo tanto. As tágides.
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