
1. Um museu berlinense dispõe de um
acervo de materiais e de dispositivos que se destina aos visitantes
que queiram perceber e recordar – experimentar recordando
– o dia-a-dia de uma Alemanha ‘ausente’ da nova
Alemanha reunificada. Oriundos da ex-República Democrática
Alemã, imagens e objectos obsoletos por intermédio
desta circunstância institucional adquirem um novo lugar (implicando
novos usos e significados); e, ainda, a relação estabelecida
entre eles, enquanto estilhaços resgatados de uma realidade
histórica extinta, sustenta uma reconstrução
conjuntural desse tempo.
A Alemanha do presente surge do facto da reconciliação
de duas das suas metades consideradas, a nível político
e ideológico, inconciliáveis entre si. A cisão
da Alemanha – e a divisão do mundo em dois blocos –
foi assinalada pela realidade do muro. Uma linha de betão
irrompeu na paisagem para barrar o Leste do resto do mundo. Uma
metade do mundo militou contra a outra metade. Cada uma delas encontrou
nessa separação real o apoio e os motivos necessários
para se manter unida, confiante e coesa.
A queda do Muro de Berlim – e, também, a derrocada
dos regimes socialistas – alimentou a esperança de
uma reunificação alicerçada numa relação
de comunicação aprofundada entre a Europa ocidental
e a Europa do Leste. Desaparecia a divisória amaldiçoada
– que opunha num mesmo território geográfico
e histórico duas visões – e com isso parecia
que a vontade de reunificação se realizaria de imediato
no quotidiano.
Com a queda do muro, o inimigo comum desapareceu. Doravante, na
metade tida por perdedora, as estátuas e monumentos dos velhos
totalitarismos são varridas e desmanteladas. No entanto,
como estão desaparecidas as velhas imagens e como os altares
que as albergavam continuam vazios – na realidade e metaforicamente
–, os vestígios dos velhos regimes teimam em permanecer
na corrente dos dias. Dir-se-ia que o muro – uma mera barreira
física facilmente demolível – se interiorizou.
Ao contrário do que demonstram os seus cacos dispersos por
colecções, ele não desapareceu realmente. Ele
espera os homens numa outra dimensão: tornou-se invisível.
O muro tornou-se invisível; apela a uma geografia invisível
que acaba por afectar a maneira como são vistos os lugares.
Para aqueles que são nostalgicos da vida na Alemanha desaparecida,
resta a vontade e a diligência dos dirigentes do museu que
lhes propõe – a eles e, claro, aos curiosos –
a mostra da vida passada, pretensamente integral e garantidamente
desprovida da protecção e da mediação
proporcionada pelas vitrinas.
2. Sophie Ristelhueber apresenta-nos
nas suas fotografias de grande formato, Fait
(1992), paisagens desertificadas de qualquer vestígio
de vida. As vistas aéreas e as vistas rentes ao solo do deserto
do Kuwait apresentam-se sem indicadores de escala, sem cadáveres
e sem traços de combate. Nenhuma notícia de vivos.
Apenas ruínas de construções confundidas com
pedras, rochas e sedimentos numa extensão ilimitada. Visões
a partir do céu, estas imagens estão despidas de narrativa
e de gente. Paisagens devastadas – qual escrita rasurada –
pela tecnologia da guerra. Imagens totalmente abstractas e silenciosas
confrontam-nos directamente com o rosto desfigurado da terra, tornada
uma superfície onde as marcas da actividade dos homens e
da história se confundem (misturam) com a actividade da matéria
e da própria Terra. Mostra-nos o acontecido apontando-lhe
a câmara mas o que nos mostra parece já estar a ser
escondido pelo tempo e pela areia do deserto. Estas imagens parecem
corresponder à exigência de Pollock de que (na sua
pintura) a necessidade de representar algo deva ser acompanhada
da necessidade de o esconder embora não totalmente.
3. Mais histriónicos parecem
ser a maioria dos novos diários de guerra elaborados pelos
soldados americanos no Iraque. Vídeos e mais vídeos
(dos mais diversos tipos) tendem a ser parcos de palavras e sem
indicação de contexto, desprovidos de tudo aquilo
que nos poderia ajudar a perceber, ou a saber, o que aconteceu antes
e depois dos acontecimentos de guerra.
A história é normalmente entendida como implicando
a conexão de acontecimentos através do tempo. Assim,
entre dois acontecimentos considerados, à sensação
inevitável de mudança de um acontecimento para outro
acontecimento acrescentar-se-ia um efeito cumulativo de mudança
que seria qualitativo.
Desprovidos de história, estes vídeos distinguem-se
daqueles diários cuja finalidade é dar ordem e coerência
a uma série de acontecimentos. O débito ininterrupto
das imagens de guerra – provenientes de câmaras de infravermelhos
instalados em tanques ou em helicópteros, de dispositivos
de visão nocturna, de câmaras de filmar, de telemóveis
e de outros dispositivos de tecnologia digital –, aliado à
gula de ver, parece bastar como incentivo. Quanto ao destino destas
imagens, talvez sejam um veículo de escape para aqueles que
desejam apartar-se do lugar no tempo que lhes acontece (coube) em
redor. A realidade virtual parece substituir a actualidade e transformar-se
em actualidade. Parecem jogar na realidade um jogo de guerra para
computador. Para quê palavras? Os vídeos são
editados com muita música e com exclamações
entusiastas e breves de operadores de câmara – um mero
«Yes!» ou «Boa!» – a acompanhar as
explosões dos alvos. Os diários de guerra tornaram-se,
na realidade, video-clips. Não parecem ser feitos para documentar
a guerra ou contar a experiência dos próprios soldados
(a sua história). Sem enredo, parecem reduzir-se a um único
objectivo a atingir: enfileirar os alvos e mandar tudo pelos ares.
Neles a constatação de Joseph Beuys encontra, quanto
a nós, a mais sombria das ilustrações: “(...)
nous vivons à une époque des explosions. Toute la
tecnologie est explosive.”
Carlos Augusto Ribeiro
Agosto 2006 |