
Sonhar é fácil (1951)
É certo que existiu
um cinema agrícola em Portugal, durante o período
do Estado Novo: nomes como Alice Gamito e Adolfo Coelho têm
uma vasta filmografia na área do documentário de temática
rural, muito fruto da famosa lei dos cem metros, que conduziu à
maciça produção daquilo que Jorge Brum do Canto,
numa maldosa expressão, chamou hectómetros e hectómetros
de película impressionada com repolhos de couve e bicho da
azeitona.
Mas não será deste cinema que falamos quando falamos
da presença da agricultura no cinema português. A questão
põe-se em relação à ficção
e à maneira como a agricultura é figurada no cinema
em Portugal. Mais uma vez, teremos de regressar ao Estado Novo e
ao imediato pós 25 de Abril. No primeiro, os agricultores
são uns janotas endinheirados, grandes latifundiários
a braços com alguns desordeiros jornaleiros; no segundo,
temos os jornaleiros desordeiros, com o MFA ao lado, contra os latifundiários.
Aqui chegados, podemos concluir que não há agricultura
no cinema português porque não há maneira de
a figurar no cinema ou, mais radicalmente, não há
agricultura em Portugal. Teremos que chegar aos anos noventa do
século passado para começar a vislumbrar uma figuração
da agricultura como referência dramática consequente.
O exemplo que mais se evidencia é o de O
fim do mundo (1991), filme de João Mário Grilo.
O filme começa com uma disputa de águas entre dois
agricultores vizinhos, chegando a vias de facto e acabando um dos
vizinhos morto e o outro na cadeia. E por aqui se fica a agricultura.
O cinema de António Reis e Margarida Cordeiro, ainda que
situado num espaço rural, muito alusivamente mostra actos
agrícolas. O mesmo se passa com o cinema de António
Campos.
É o incontornável Manoel de Oliveira que mais frequentemente
situa os seus filmes em zonas de trabalho agrícola. No início
de Acto da Primavera (1963), um
homem cava a terra. Em O passado e o presente
(1972) há um jardineiro que cuida amorosamente das flores,
regularmente destruídas pelos suicídios a que ele
assiste atónito e mudo. Sem desesperar, o afanoso jardineiro
repõe os espécimes destruídos pelos suicidas
e chega a encontrar um rato morto: rato suicida? Ao longo de Vale
Abraão (1993), vários são os momentos
em que homens podam, sulfatam e colhem as uvas das encostas do Douro,
mas apenas como figurantes. O próprio Oliveira teve um projecto
nos anos trinta de fazer uma grande epopeia dos vinhateiros do Douro,
chamada Gigantes do Douro. Os tempos
não eram propícios às epopeias e o projecto
foi sendo desenterrado aos poucos nos seus filmes seguintes.
No entanto, os anos trinta viram nascer um dos poucos, senão
o único, filme de ficção exclusivamente centrado
numa temática agrícola: A
canção da terra (1938), do não menos
incontornável Jorge Brum do Canto. O filme foi filmado na
ilha de Porto Santo e centra-se na carência de chuva para
alimentar as culturas de cereais. Quando finalmente a chuva cai,
ainda que seja de um regador, é a apoteose geral. Esta epopeia
trágico-rural é continuada quinze anos depois pelo
mesmo Brum do Canto mas no capim moçambicano, em finais do
século XIX, no filme Chaimite
(1953): o sonho do jovem casal de colonos é ter uma casa
no campo, com um ribeiro à porta e searas verdejantes.
Em tom de comédia neorealista, Perdigão Queiroga realizou
um filme chamado Sonhar é fácil
(1951): António Silva, cansado das comédias lisboetas,
resolve levar a família para o campo. Dedica-se à
agricultura, mas cedo percebe que morrerá de fome se esperar
que as batatas saiam da terra. Um malvado capitalista tenta levá-lo
a desistir, mas a vocação agrícola de todo
o lisboeta é salva por uma cooperativa. Como o latifundiário
não consegue vencê-lo, junta-se a ele e passam a ter
uma agricultura corporativa e já não cooperativa.
O título do filme, de resto, é desencorajador de iniciativas
futuras.
Mas, em 1965, o neorealismo chegou ao cinema português pela
mão do médico escritor Fernando Namora e do assistente
esforçado Manuel Guimarães. Juntou-se aos actores
do Teatro Nacional com aquela zona do país propícia
ao neorealismo, o Alentejo, e saíu um melodrama agrário,
outra vez a braços com a falta de chuva.
Somos um povo de heróis do mar, mais do que de heróis
da terra. Não há agricultura, como não há
indústria, nem comércio. É um cinema do terciário,
tal como o país. Neste sentido, temos um cinema fiel ao retrato
que a televisão faz do país: um campo a soldo de criminosos
e uma urbe a abarrotar de vedetas.
O cinema português sempre teve aversão a mostrar o
trabalho, não só o trabalho físico mas também
o trabalho como actividade humana. A inacticividade que afecta todo
o cinema português traça um retrato fidedigno dos portugueses,
em que tudo é superficial e fútil e, quando há
profundidade, não é propriamente metafísica.
Abundam, portanto, os retratos de inactividade, a actividade favorita
do cinema português.
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