| Annabel
Lee
Performance
documentação
Ponto de encontro/Meeting point: bar da praia
Zambujeira do Mar
6 de Setembro
19h
Paula Rodrigues
Dos confins profundos do oceano uma mulher volta com o desejo obsessivo
de reencontrar algo perdido, de encontrar a sua forma perdida. Tal
como à performer, que a expressa, é dado um tempo
de ser e estar com os outros sendo ela mesma e Annabel Lee com o
tempo de um pôr-do-sol antes de voltar a mergulhar no abismo
aquático do esquecimento, o passado.
Annabel Lee é um nome, um nome de uma mulher morta, amada
e enterrada, uma mulher de um poema, um poema de Edgar Allan Põe,
assim intitulado. Annabel Lee é um nome que designa também
a performer no seu caminho para encontrar a presença da morta
que existe em si mesma. Um nome e um corpo. Um nome para o papel
e para os títulos de referência a um acontecimento
que é o do corpo. O corpo de uma presença que se insinua
no espaço para se perder nele, e em certa medida para se
perder de si mesmo. Não será o corpo a primeira coisa
que perdemos, ou, que nunca chegamos a possuir verdadeiramente?
Acho que ouvi esta frase nalgum lugar, o sussurro de um morto, a
tentativa de reabilitar referências no tempo presente. Todas
as memórias, imagens e sonhos, conduzidas pela obsessão
de um desejo traduzem-se assim numa presença que evolui no
espaço através do movimento e da sua expressão.
Mais do que histórias traz imagens e sensações
expelidas de um caos nocturno, por vezes burlesco. Annabel Lee é
o primeiro ser de vidro descoberto pela performer, a sua fragilidade
reside na sua obsessão. Uma morta que não se resigna
e que, no entanto, não pode escapar à sua condição,
a de estar viva. Um corpo que se abre para receber e para falar,
numa língua tão estranha quanto inútil, a língua
dos sonhos que ela conhece. Tanto que, no final, talvez, fique apenas
a mulher, a areia, o mar e o sol que desaparece. Ou, quem sabe a
mulher desapareça, como seria de esperar de um morto bem
comportado.
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