
Uma casa é uma casa
É uma casa…
Escrita na Paisagem, festival de performance e artes
da terra regressa para mais um ano, o 5º,
de uma programação cheia de surpresas,
novidades, plena de diversidade e rigor, aberta às
muitas disciplinas da casa das artes, aos seus cruzamentos
com a paisagem e com as pessoas. Os projectos que se
empenham nas características do território,
como o circuito O espírito do lugar,
ou os que se aproximam da criação universitária,
como a plataforma Janela indiscreta, ou ainda
a Escola de Verão que este ano, pela
primeira vez, realizamos, são sinal bastante
dessas abertura e cruzamento. Festival transdisciplinar,
comprometido com a criação contemporânea
e com o Alentejo, com as instituições
e com a rebeldia, Escrita na Paisagem vive
de tudo isso e desafia para isso tudo.
Quinta edição de uma aventura gratificante,
mesmo quando as dificuldades se avolumam e os obstáculos
parecem crescer a cada passo, é em torno da CASA que
tudo circula, entre a metáfora da casa natural
(a colmeia em que nos inspiramos para a imagem do Festival)
e a sua realidade paisagística. Ela é micro-perspectiva
e abordagem macroscópica, ela é território
do íntimo e matéria do colectivo, rústica
e tradicional ou rebelde de modernidade, urbana ou rural,
lugar de múltiplos fazeres e saberes, numa escala
que vai do familiar ao urbano e ao planetário.
Por isso o Festival abraça também a causa
do Planeta Terra e a temática ambiental, neste
que é o Ano Internacional do Planeta Terra,
promovido pela UNESCO.
A casa apresenta-se-nos, assim, de perspectivas
muito variadas. Por exemplo, as que nos chegam com o
circo, que desde 2007 apresentamos na programação.
O circo do imaginário nómada, da casa ambulante,
da fantasia clownesca, chega-nos de Espanha, Alemanha
(via Portugal) e França, com perfis que vão
do one-man-show (L. Cartouche) ao cenário
ridente da companhia Katraska ou à pequena
tenda fascinante de L’Attraction Céleste,
onde se apresenta um dos mais comoventes e divertidos
projectos de criação circense da actualidade.
Nos projectos de teatro, é o fascínio da
dimensão de intimidade que marca presença,
nas propostas de consagrados (Fernanda Lapa dirige The
blue room, de David Hare, com alunos de Mestrado)
como na experimentação de Márcio
Pereira ou Giorgia Maretta. São casas que se mostram
por dentro, com a transgressão como horizonte
maior. Ou no jovem colectivo Vigilâmbulo Caolho,
cujo Senhor Valéry se desmultiplica em
versões de si numa casa que une o íntimo
ao planetário (a minha casa é o meu mundo,
pode dizer-se com o poeta). E é ainda nessa direcção
que segue A felicidade, um concerto de Kubik
com música para imagens de Alexandre Medvedkine
em que a casa é o pequeno mundo de um casal e
o grande mundo da revolução. E sempre lugar
de concretização de felicidade!
Mas a casa vislumbra-se como presença no território,
como história ou possiblidade dela. É aí que
mergulham os Andamentos, projectos de investigação/criação
que o Festival desde o a primeira edição
promove. É aí igualmente que se encontra
um projecto como O espírito do lugar:
um circuito que articula património e criação
em sete lugares do Alentejo. O desafio é para
a viagem, a visita, para alguns o regresso à casa-mãe
e o confronto com olhares-outros sobre as tradições,
os castelos e museus. É essa ‘troca de olhares’ que,
em boa medida, mobiliza o workshop Open houses a
olhar para o parque de casas devolutas eborense. É aí também
que queremos situar a Janela indiscreta que
abrimos sobre a criação artística
universitária —multimédia, teatro,
música, performance e artes visuais—, trazendo-a
para o espaço público, para a arena internacional,
para o cruzamento de perspectivas.
Porque há muitas casas dentro (e fora) de uma
casa, queremos contar com a sua. Para que conte com a
nossa, aqui lhe deixamos o convite. Porque, a prolongar
o eco do verso de Gertrude Stein que usamos no título,
uma casa é uma casa é uma casa…
José Alberto Ferreira
Director Artístico do Festival
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