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HOME > CRÓNICA > O LUÍS

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CRÓNICA > indíce

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Bárbara Fonseca


O Luís

1 O Telefonema
Num dia chuvoso, José e Adelaide encontram-se em casa. Cada um sentado na sua poltrona de cabedal, com uma manta axadrezada nos joelhos, as pantufas forradas com pelo de ovelha cuidadosamente arrumadas do lado esquerdo das suas respectivas poltronas a contemplar um vaso de orquídeas brancas e as suas variantes, rodeados de três gatos.
O gato branco chama-se Leandro, o gato preto Leonel e o gato azul Leopoldo.
Adelaide recebe um telefonema que vem destruir a contemplação de ambos.
O telefonema era de um agente da PSP a informar que o seu único e querido filho Luís sofreu um acidente de viação, e que infelizmente não resistiu aos ferimentos e chegou já sem vida ao hospital.
Adelaide durante o telefonema não emite um único som, desliga o telefone e comunica ao seu marido José que tem de reunir toda a família, amigos e conhecidos para o jantar, para desta forma comunicar que o filho de ambos finalmente apareceu.
José, após receber a notícia, dirige-se a correr à igreja local onde estava a decorrer uma missa. Aí se encontrava todo o povo daquela pequena localidade, incluindo os seus familiares, amigos e conhecidos. José convidou-os para jantar em sua casa, pois tinha um importante comunicado a realizar.

2 O Jantar
Os habitantes da pequena localidade de Enganos encontram-se todos reunidos à mesa de jantar do Sr. José e da Dona Adelaide, a comer avidamente formigas fritas acompanhadas com batatas cozidas e musgo da ribeira, igualmente cozido, especialidade daquela terra.
Terminado o jantar, e após terem arrotado como modo de demonstrarem que apreciaram o jantar realizado por Adelaide, o Pároco daquela terra, homem bastante culto e bastante respeitado por todos os habitantes, pergunta aos anfitriões qual o motivo daquela maravilhosa refeição.
Pergunta à qual José respondeu que finalmente o seu único e querido filho Luís apareceu!
Todas as pessoas presentes naquela mesa comemoram e festejam o regresso do filho pródigo da terra que estava desaparecido há doze anos.
Até que um vizinho pergunta onde é que está o Luís. Adelaide responde prontamente e diz que ele está na morgue e que regressará depois de amanha, concretamente passado dois dias.
Todas as pessoas ficam perplexas, sem saber como reagir à resposta. José pergunta á mulher se o filho está vivo ou morto?
Adelaide responde que o filho teve um acidente de aviação, não tendo resistido aos ferimentos, mas que o importante e o motivo de comemoração era o facto de o Luís ter finalmente regressado para junto da família.
José dá-lhe razão e acrescenta que o importante é o filho ter aparecido, a questão de estar morto é apenas um pequeno pormenor sem muita importância. Pois com o regresso do filho já podem cuidar dele, falar com ele. Tendo a certeza que ele os irá sempre ouvir sem os contradizer em nada, poderiam voltar a ser uma verdadeira família feliz.
Após ouvir isto, o Padre sugere uma missa para apaziguar o espírito do filho da terra. Toda a gente concorda com a sugestão.

3 A Missa
No dia seguinte, por volta das 19h 30, toda a gente se reúne junto ao átrio da igreja, dando os Parabéns aos pais pelo aparecimento do seu único e querido filho Luís.
Após os cumprimentos, entram todos na igreja para o Padre dar início á missa.
O Padre começa o velório anunciando: — Meus queridos e fiéis irmãos, estamos hoje aqui reunidos para festejar o aparecimento do nosso querido Luís, que a sua alma seja sempre eterna e esteja sempre entre nós. Ámen.
Todos: Ámen.
Comem a hóstia e vão para o átrio festejar.

4 A Morgue
Adelaide e José muito contentes dirigem-se à localidade Incógnita onde existe a única morgue da região para realizar o reconhecimento do corpo do seu único e querido filho Luís para o poderem levar para casa.
Chegam à morgue e falam pessoalmente com o agente da PSP que lhes deu a trágica noticia.
O agente pergunta-lhes se trouxeram alguma fotografia do filho para desta forma ser mais fácil o reconhecimento do corpo, ao que o casal responde afirmativamente, mostrando a foto.
O agente olha para a foto perplexo e pergunta se não tem uma fotografia mais recente, ao que o casal responde que já não vê o filho há doze anos, e por essa razão não possui uma fotografia recente.
O agente apresenta o casal ao médico legista e seguem para a sala onde está o cadáver.
Adelaide: Oh, mas este não é o nosso Luís.
Médico: Não?!
José: Não (e mostra-lhe a fotografia).
Médico: Pois não, que maçada! Mas afinal quem é este homem? Bem, peço imensas desculpas pela situação e pelo incómodo. Por favor, Sr. Agente, encaminhe o casal até ao carro.
Agente: Venham por favor, não percebo a razão de estarem tão tristes.
Adelaide: (chorosa) Nós tínhamos a esperança que fosse o nosso filho.
José: Há muito tempo que não o vemos, nem temos notícias dele.
Agente: Alegrem-se, ao menos o vosso filho está vivo!
José: Mais valia que estivesse morto, ao menos poderíamos levá-lo para casa connosco.

5 Funeral
José e Adelaide chegam cabisbaixos a casa.
Em casa deles encontram-se os habitantes da localidade à sua espera.
Quando o Padre lhes pergunta «O que é que se passa?», o casal responde que afinal o Luís não morreu e que continua desaparecido.
Õs habitantes ficam muito inquietos, pois já tinham tudo preparado para a recepção do Luís. Por esse motivo o Padre sugere que se faça o funeral na mesma.
Adelaide pergunta como é possível realizar um funeral sem o corpo.
O padre responde que é possível, assim se um dia o Luís regressar poderá ver que há muito aguardamos o regresso dele e principalmente que nunca o esquecemos.
O povo todo junta-se no cemitério para realizar o funeral.
Encontram-se bastante tristes e choram pela ausência do Corpo, as mulheres preparam as coroas de flores, que deitam por cima do caixão vazio.
Os homens carregam com terra as pás e deitam por cima do caixão.
O padre lamenta no seu sermão a falta do corpo de Luís no seu próprio funeral, e espera que o seu espírito os possa ouvir para que regresse para junto dos seus.
O povo entrega aos pais de Luís uma lápide para eles escreverem em honra do filho, e vai-se embora para deixar que tenham um pouco de intimidade.

6 Lápide
José: O que é que escrevemos?
Adelaide: O que sentimos.
Começam a escrever com tinta chinesa na lápide o seguinte:
«Querido filho, cá te esperamos com muitas saudades.
Esperamos que o teu regresso esteja para breve, beijos dos teus pais, restante família, amigos, conhecidos e desconhecidos. Prometemos vir todos os dias conversar contigo, trazer-te comida e orquídeas».
Ambos colocam a lápide junto ao caixão, por cima da terra colocam orquídeas brancas e suas variantes e vão embora.


 


Casa Invisível
Carlos Augusto Ribeiro

Guillermo Gómez-PeÑa: a arte de diluir fronteiras

Paulo Raposo e Ana Pais

O LUÍS
Barbara Fonseca


CASAS/PORMENOR DE SONHO
Regina Guimarães