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Carlos Augusto Ribeiro
Escola Superior de Artes
e Design
Caldas da Rainha
CASA INVISÍVEL
O que é ter uma casa? É ter eira e beira. Uma casa é mais
do que um bloco na paisagem: é o lugar de todos os lugares, visíveis
e invisíveis. Uma membrana e não um sólido esburacado.
O nosso corpo tem necessidade de assinalar os lugares para neles se orientar;
para nas suas deslocações não se perder no caminho entre
dois lugares. Estes manifestam os traços de transformação
natural e humana. Testemunham a procura constante que grupos e indivíduos
realizam para fazerem do espaço o seu habitat.
A casa corporizaria a sociedade quotidiana de pessoas que comem o mesmo pão
e convivem sob o mesmo fogo. Nela, a pertença a uma cultura, a uma língua,
a uma sociedade política se traduz e reproduz em participação
e em comunhão. A casa seria o laço elementar entre a vida doméstica
e a vida política.
Uma casa visível está associada a uma rede de caminhos que a ligam
ao mundo. Ao mundo e, por assim dizer, ao infra-mundo. A casa natal, a da infância
ou a do sonho dispersam-se no nosso corpo.
A casa interior (invisível), como que uma irradiação da
alma, assegura a habitabilidade da casa visível. Só ela pode escorar
os efeitos devastadores da privação da casa exterior. Objecção:
a perda ou a alienação da casa exterior anuncia o deserto da miséria
onde a pobreza nada tem de subversivo. Nudez absoluta.
É grande a variedade de formas da casa invisível: promessa, projecto,
sonho, perspectiva, instituição, amor, ícone...
As casas invisíveis afluem ao local de qualquer lugar. A terra e o corpo
são os seus abrigos. Ora vividas ora esquecidas. Numa casa visível,
actual, há uma sombra que impregna e escarnece, dia a dia, das paredes
estanques. Quando a implosão suceder à invasão, entre duas
casas visíveis, vizinhas, a casa do vazio teima em não desprender-se
do entulho e dos pedaços de dentro ainda dependurados. A casa do vazio
põe em perigo as casas que um dia teve a seu lado.
A casa de vidro: emblema da modernidade. A casa é consagrada ao espectáculo.
Leve, a casa eleva-se da terra e descola-se do solo para, ao ser animada e motorizada,
se tornar a casa cinética. A casa-cápsula, oferecendo conforto
e protecção num ambiente hostil bem como a ligação
a uma infra-estrutura fornecedora de água, gás, esgotos, comunicação
e transporte, espelha, enquanto habitat elementar, o espaço uterino tecnologicamente
assistido do astronauta.
Outro modelo de casa invisível: a casa cujo solo é o ecrã de
televisão.
O triunfo do homeless, dos doentes de Sida, dos fluxos emigratórios,
das invasões urbanas de estranhos, dos marginalizados, dos expatriados
e dos desempregados, fala da desvalorização da casa como palco
da existência de uma vida para se tornar um estaleiro de sobrevivência.
Um caixote de lixo, uma caixa de Brillo é o bastante para estar suspenso
entre a casa e o universo, entre a casa e o mundo. Dói-nos saber que quem
agora não tem a sua casa, não a construirá mais. É que
ainda nos custa perceber como fazer de cada ponto cardeal a nossa casa.
Quando se diz que há a perda da casa é por não se poder
simplesmente perguntar onde – por um local para o passado e para
o futuro. O espaço abunda; vigiado e controlado mas subtraído de
linha de horizonte. Sem contornos, sem fronteiras reais, ele desorienta e faz-nos
sentir falta de um lugar. De um algures.
No coração do homem há lugares que não existem. Lugares
invisíveis que apelam a uma cosmogénese.
O espaço planetário foi unificado pelo tempo-luz. O mundo foi dividido
em dois: o real e o virtual. Os espaços virtuais, realizados pelas redes
de tele-comunicações e pelas tecnologias informacionais, acrescentam-se
aos espaços reais. Hoje todos os lugares estão em relação
directa ou mediatizada com o exterior. Habitamos a rede e descobrimos que existimos
em conjunto segundo as relações que construímos.
Onde pára a nossa casa? No tempo do virtual temos duas casas: a real e
a virtual. Uma pode substituir a outra. A divisão da realidade complica
assim a resposta à pergunta “onde se está?”. Porque,
doravante, se está aqui e ali ou suspenso entre o aqui e um ali. Uma casa
perdida na realidade seria então uma casa invisível. Uma casa que
diria que o mundo deixou de ser um lugar habitável.
A casa invisível é aquela a que não sabemos regressar e,
por conseguinte, em relação à qual nos dizemos irremediavelmente
perdidos. [...]
Texto escrito para uma exposição colectiva intitulada Casa
invisível, realizada em 2001 num prédio vazio em Lisboa, na
Rua do Salitre.
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