Regina
Guimarães
O caminho de casa
cheira a árvore
genealógica.
Volta apenas
quando invejares
a majestade corcunda
das oliveiras.
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Casas
Sonho muitas vezes com casas
as que conheço e as que não conheço.
Nas que conheço descubro por acaso
mas sem que isso pareça pesadelo
aposentos nunca nunca visitados.
Nas que não conheço eu habito
desde sempre ou desde então.
Como peixe em sua antiga água
mexo nas coisas e moro sem pudor.
Por vezes as casas mais distantes
são vizinhas, comunicam entre si,
sejam ou nunca fossem minhas.
São cativas dos jardins que as libertam
há homens moribundos que lá gemem
suas caves e mansardas tremem
porque ali o terramoto é permanente.
São casas de toda a gente
porque se entra sem pedir licença
e sai-se sem promessa de voltar.
Seus perfumes são recordação
das nossas vidas não vividas
muitas delas à mão de semear
mas poucas as mãos de as colher.
Sonho
e o sonho é
grão gigante
em celeiro exíguo.
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Pormenor de sonho 1
Quando os heróis regressavam
a casa
secavam as lágrimas
e davam nomes às fúrias,
esperavam que alguém os esperasse
mas em vez disso
eram recebidos por multidões
que só queriam vê-los de costas.
E assim se quedavam para a posteridade
recortados sobre fundo de lágrimas secas
sobre fundo de inúmeros nomes
sobre fundo de fúrias em fuga.
Quando os heróis partiam
eram enfim vistos de costas
e ficavam suspensos no primeiro passo.
Pormenor de sonho
2
Quando os heróis regressam
trazem os pés sujos de oceano.
Mal chegam a casa
guardam os dois na salgadeira
e trocam-nos por pés de água doce.
Fazem-se mais leves a caminhar
quase se confundem com os outros
que nunca partiram
e ainda menos voltaram.
Pormenor de sonho 3
O contrário do destino bate à porta
mas é pesada a mão que vai abrir.
Ouve-se
ao longe o pranto dos sinais
e no fio do horizonte
o olhar pousado
não se permite
um instante de descanso.
Acorre à casa o bicho
mais manso
saudar o calor que se derrama
na soleira gasta.
Tudo me esquece e me escapa
esqueço e escapo
escapo e esqueço
e a cada fim procuro
outro começo.
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