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1º Manifesto
Art Terror Foundation
2008
1ª parte
World Heritage Arterrorists/
Arterroristas Património
Mundial
Avançamos decorados dos pés à cabeça
como panfletos em branco ou manifestos panteístas.
Doentes de saber que basta retirar a minúscula
cavilha para que a Cultura venha parar ao andar de
baixo. Mesmo assim dormimos, arquitectonicamente,
as nossas sestas de microrganismos deteriorantes.
O mais poderoso soporífero é um detonador
debaixo do travesseiro.
O sentido de todo o nosso ruído e do nosso
verbo é o silêncio de fundo.
Rompamos de imediato a fidelidade para com este manifesto.
Desejemos o absoluto.
O que dizemos neste instante está datado no
momento. Não críamos répteis
no espírito
A escrita é um dispositivo claramente anacrónico.
Urge abolir o alfabeto.
O divórcio é uma disciplina obrigatória.
A oitava liberal art.
O mais belo gesto retórico do acto criativo
consiste em provocar no interlocutor profundas equimoses
telepáticas. A comunicação tem
que gerar fendas no espírito.
O mais profundo golpe da espontaneidade é impedirmos
a formação de arcobotantes.
O mais aguçado punhal erguido contra o cume
do espectáculo.
O arterrorismo apenas pode ser decifrado com recurso à criptozoologia.
Todo o papel tende a ser tornado palimpsesto. Esta é,
para já, toda a justiça presente.
Mas, eis que soterrado nas duas mil e oito velaturas
opacas, não existe já nenhum esqueleto
formal.
Porém reificamos nós, protótipo
de cadáver esquisito tranquilizante.
Escutem-nos pelos flancos, com a franqueza de atiradores
de tomates. Precisamos do vosso voto e da vossa discordância.
Somos rafeiros alentejanos de máscara, o fruto environmental
art de todas as revoluções estético-sociais
profanadas desde o Neolítico.
Sabemos hoje que a poética e a metalomecânica
se equivalem em toda a linha.
Benjamin Péret e Walter Benjamin tiveram uma
cria a que chamaram Presente Extravasante. Desse
ovo brotaram em coro os subaquáticos, os intraterrestres
e nós mesmos: Lulas Gigantes (anfíbias).
Temos ambos os pés bem assentes nas utopias,
algumas bastante patéticas, que, desde já,
são ultrapassadas pelo real entrapado que
em lado nenhum já persiste.
E as portas da imaginação bem escancaradas
e envernizadas para sermos os primeiros a escapar
caso a coisa dê para o torto: Marte está bem
ao nosso alcance.
A revolução agrícola foi comida
pelo drácula drag-queen de Bram Stoker.
A revolução industrial foi transformada
num lustre.
A revolução digital foi higienicamente
institucionalizada.
A revolução bioética foi enlatada.
No entanto sabemos que tudo isto tende a explodir
um dia pelo processo da expansão de gases
como, felizmente, sucedeu com algumas latas de “merda
de artista”.
Continuamos a armazenar mantimentos, afinal o mundo é oco.
Construiremos uma arte passível de ser vislumbrada
através do nártex por todos os doentes
e acamados da Terra.
A nossa maior vocação é o bramido
telúrico. Contra o idealismo e o materialismo
dialéctico temos o expectorante sísmico.
Isto implica uma metamorfose cão/rato.
Isto implica uma oxigenação imediata
do espírito.
Isto implica uma robustez ridícula nos órgãos
dos sentidos.
Isto implica esgoto e algum gesso.
Usaremos o tarot de Marselha e a catapulta.
A arte contemporânea não é senão
um enorme epitáfio: uma Fífia. Um flirt.
Um flik do Federico Felinni ao pequeno-almoço.
Arquemos com as consequências. Nenhum tupperware conseguirá conter
todos estes restos. Tragam as larvas do novo mundo,
a gangrena fará o resto.
E se custa assim tanto admitir, é porque apesar
de tudo é um bom negócio
“Um bom negócio é a melhor arte”.
(?)
Obviamente. Mas temos outra receita: Uma boa arte é o
melhor ócio.
Alguns princípios básicos:
1º -“Amor Musculado” contra os antigos “Monumentos
Gelados”
2º -Anarquia completa a todos os lactantes.
3º-Terrorismo Poético como forma e estilo
de combate.
4º-Insectolatria humanista.
5º-Mamíferos sim mas nem tanto.
6º-Parvos sim mas não muito.
Exigimos a extinção imediata das seguintes
instituições:
1ª - Os direitos de autor
2ª - Os prémios para jovens artistas
3ª - A “meritocracia” (incluindo
as melhores notas aos bons alunos)
4ª - As bolsas de estudo (especialmente as de
mérito)
5ª - A “carreira”
6ª - Os descontos para estudantes nos museus
e no metro
7ª - As férias
8ª - A polícia que patrulha as zonas
perigosas junto ao pólos universitários
9ª - O estatismo mediático
10ª - O parafuso concertante
Podemos finalmente deflagrar as nossas bombas monogâmicas.
A liberdade e o amor actuarão como feromonas
sobre os organismos.
Nada mais concreto.
É urgente substituir Marcel Duchamp por Stephen
Hawking.
É urgente substituir o ready-made pelo worm-hole.
É urgente substituir a águia pelo ornitorrinco.
É urgente substituir a bandeira e o hino por qualquer coisa mais Susan
Sontag, por exemplo: uma banana solitária ou uma bailarina do “Elefante
Branco”.
É urgente substituir os feriados religiosos por grandes festivais onde
as populações poderão assistir a grandiosos happenings,
nos quais robôs inteligentes farão réplicas monumentais
de pinturas de Yves-Klein mas com cadáveres de cyborgs body-artists semelhantes
a Joseph Beuys pingando sangue sintético das válvulas, enquanto
as praças e avenidas são invadidas por enormes árvores-vulva
de folha perene que tornam o trânsito automóvel impraticável
e na copa das quais constroem os seus ninhos pequenos homens arborícolas
com pérolas em vez de olhos e baleias-azuis em vez de braços,
alimentando as suas crias com fruta que brota directamente na bolsa marsupial
da progenitora que chega a viver perto 18 milhões de anos. Não
sabemos ainda o que faremos em relação às ambulâncias… temos
fé que num mundo destes não existirão doenças nem
acidentes graves.
É urgente substituir a arte por um minuto de silêncio, foi para
isso que se inventou o serialismo, que é mais ou menos a técnica
utilizada pelos serial-killers nas suas death paintings mas
um pouco mais sangrento e realista.
É urgente mostrar respeito pelos nossos mortos…
Pintaremos com o olho ou com outra parte misteriosa
do cérebro à qual só os índios Navajo norte-americanos
e os Tupinambás brasileiros têm
acesso: entre o negro e o branco. Serão essas
a “ultimate paintings”.
Gostamos mais de peras que de aporias.
Gostamos mais de vermes (earworms) que de vernissages.
Gostamos mais de moluscos que de Moleskines.
Os maus artistas serão condecorados com medalhas
de estrume por fazerem pinturas maravilhosas. Esta
será a derradeira derrapagem fertilizante.
O Alentejo será inundado de vinho e a esse
mar rubi acorrerão todos os povos da terra ávidos
da liberdade que lhes foi usurpada durante milénios
de opressão-punheta.
Sexo, sereias e bibliotecas para toda a gente!
Antigona e Sisífo serão reabilitados
e indemnizados por séculos de ostracismo.
Faremos deles marido e mulher e povoaremos a terra
com minhocas gigantes que tornarão a agricultura
biológica novamente possível.
As manobras militares começarão pelos
mictórios de onde soltaremos os poetas beat que
lá trancaram durante quarenta anos a pão, água
e electro-choques.
O princípio da horizontalidade original
geológica será finalmente compreendido,
adoptado e posto em prática como um sistema
social orgânico e lógico.
A fruição será absoluta.
Há anos que não se vê uma carroça
a ser puxada por um artista. Isto fez com que muitos
tivessem pensado que a menstruação
pictórica era o fim da esperança.
A prostituição será varrida
dos quartéis académicos. Apenas se
escreverão teses e ensaios por prazer e para
pôr a carne em movimento.
Todos os artistas tidos como utópicos serão
considerados santos ou erguidos a anti-presidentes
da Terra. Isto será o fim do êxtase
tardo-capitalista e o início da vida extasiada.
Os acordos ortográficos tornar-se-ão
berlicoques obsoletos pois todos falarão a
mesma língua: o dialecto do Fogo.
Dois ovos Fabérge para por na açorda.
Setenta e três tentáculos tantálicos
para o almofariz. A arte será gastronómica
ou não será nada!
A vida será fantástica ou será coxa!
Antes!
Perder a vergonha e desatar a vender quadros motivado
por rumores apocalípticos.
Antes!
Regressar à pintura de cavalete.
Antes! Ser o primeiro hermeneuta a dilacerar as escrituras
sagradas.
Temos que admitir, antes de mais, que o pós-modernismo é um
estado cataléptico.
Depois disso podemos dedicarmo-nos exclusivamente
ao artesanato, à indústria e à captura
de lagosta.
Na verdade queríamos mesmo era ser políticos,
caranguejos eremitas, ou pelo menos… filósofos…mas
faltou-nos coragem, limitámo-nos a ser artistas! É por
isso que não podemos mostrar os nossos rostos. É impossível
pintar retratos.
Já houve tempos em que os intelectuais eram
apreciados pelas mulheres bonitas e pelos homens
sedutores. O intelecto era um afrodisíaco.
No entanto, faça-se essa justiça, fomos
os primeiros a contextualizar a bosta de vaca.
Vagueamos livremente entre o masoquismo e a esperança,
isto é, uma espécie de bomba de neutrões,
a neutralidade completa: o “3”.
O tromp
l´oeil/tunning ultra-barroco
da alma.
2ª parte
Das margens do Guadiana ao MoMA
Os que se dedicam exclusivamente ao restauro das
hierarquias e ao retardo, têm um almoço
marcado com os futuros petardos pacifistas.
Isto é: dinamitar os circuitos académicos
por dentro.
Um teleporte.
Um reordenamento.
Uma dádiva.
A alienação é o arco triunfal
do mercantilismo. Para nós o seu toque a finados.
O mais translúcido e límpido biocombustível
achado.
Uma deriva ruminante para esclarecer de umas vez
por todas que o artista é uma vaca.
É preciso aplicar a táctica da cegonha para elaborar os efeitos
mais espantosos e desconexos.
Tempos difíceis estes.
Aliás:
Nunca existiram de outros.
Mas ainda vale a pena morrer electrocutado?
(-DEPENDE DO CRÍTICO MEU CARO)
Todos os estudos psicogeográficos indicam
que no Alentejo, para além dos ocasionais
suicídios abjeccionistas, existe uma taxa
elevadíssima de nascimentos nado-vivos em
estado pré-situacionista, prontos a chuchar
na velha teta revolucionária.
Ao fim e ao cabo isto é um convite para a
grande cópula transatlântica.
Bem, antes de mais convém admitir que o ímpeto
libertário tem o seu quê de patológico
e de reacção alérgica incurável,
e que a pilhagem é o que há de mais
orgânico na doença.
Antes o jogo da batota que a lepra!
Epistemologicamente os “Bonecos de Estremoz” e
o “Colosso de Rodes” são a mesma
coisa, a mesma lógica se aplica às
horríveis “pinturas azuis” de
Picasso e aos magníficos “Painéis
de São Vicente” de Nuno Gonçalves.
Apesar da dieta mediterrânica não estamos
com boa cara.
Às vezes fartamo-nos de ser apparatchikes da parvónia.
Também a nós nos chateia ser sequestrados
pá!
No Alto Alentejo, apesar da globalização
lavrar por aqui há muitos anos, nunca se produziu
boa Pop Art nem nada do género. Seria contra-natura e
uma péssima colheita.
Um pé na arte outro na suinicultura - ballet
contemporâneo. Esta é a mais bela postura.
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