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   Festival 2011  
2010 > APRESENTAÇÃO
 
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ARQUIVO VIVO

Escrever na paisagem é o gesto cultural mais continuada e aprofundadamente repetido pelo ser humano na sua relação com o território. Como num palimpsesto, sobrepõem-se ao longo do tempo narrativas, pontos de vista e marcas de actividades que são formas, espaços, pessoas e movimentos, ora presentes ora ausentes, constituindo o que pode pensar-se como um imenso arquivo geológico, mas também antropológico, político, cultural, performativo, na exacta medida em que é dos homens, das suas opções de vida e das suas práticas culturais e performativas que resulta o que chamamos paisagem. O que lemos como paisagem, o que escrevemos como paisagem.


A sétima edição de Escrita na Paisagem — festival de performance e artes da terra olha para a paisagem à luz da ideia de re:play. Repetição, arquivo, memória, documento, uma paisagem feita ainda (sempre) da possibilidade de re:lerre:fazerre:ver. Isto é, de performar o arquivo, atendendo ainda a tendências da cultura contemporânea que passam pela re:masterização, pelo copy-paste, pelo re-mix, pela fotocópia. Tudo isto sem esquecer o quanto de re:petição há nas tradições, que se re:visitam encontrando nelas mesmas as vias de re:novação.


Projectos vindos da cultura do re:mix como o do DJ Spooky – That Subliminal Kid, ou da cultura electrónica, como no caso dos PGT. Projectos de re:actualização, a partir de ou em confronto com a sua memória documental ou artística, como os de Vera Mantero — sobre cujo trabalho se promove uma exposição documental — ou de Antonio Tagliarini e Daria Deflorian, sobre a figura de Pina Bausch em Café Muller. Ou ainda a elaborada condição documental das propostas do Teatro do Silêncio ou de Dinis Machado, a poética especular do prjecto da Companhia Moglice-Von Verx ou a leitura crepuscular do On the road de Tó Trips e Tiago Gomes. Presença forte têm também os projectos de criação que claramente reflectem o conceito de re:play, como os de Rita Natálio ou António Pedro Lopes, as residências (Teatro do Vestido, Pedro Antunes), as estreias (Teatro de Ferro) e os projectos da plataforma Movimento Arriscado que pontuam a programação. 


Duas exposições marcam esta edição do Festival. Em parceria com o Museu de Évora, um diálogo entre Últimas Ceias quinhentistas e as criadas por Marcos López (2001), Jorge de Sousa (2007) e Noémia Cruz (1979-2010) coloca a repetição do gesto redentor no centro da problemática do re:play. Já com Pedro Proença, outra presença no Festival, a abordagem do tema é feita a partir dos materiais re:visitados nas suas Saladas Tipográficas, usando os espaços de vilas e cidades para se exporem livremente em colagens e formas de presença radicais, no que quisemos designar como ‘arte de guerrilha’.


Tempo ainda para referir a Escola de Verão, com Cie. Philippe Genty (FR) e Phillip Zarrilli (UK), que este ano cresce em número e intensidade ao conjugar as oficinas de formação com a criação (ambos com apresentações públicas) e com a figura do artista convidado a que Vera Mantero dá corpo nesta edição.


No quadro das iniciativas financiadas pelo Programa Cultura da União Europeia, o Festival participa, entre 2010 e 2012 no projectoINTERsection: intimacy and spectacle, integrado na Quadrienal de Praga 2011, no âmbito do qual acolhemos a realização de um simpósioSobre Curadoria em Évora (27-28 e 29 de Setembro 2010).


Pois tudo isto é Re:play (re:petição, re:novação), está assim identificado o tom geral dos projectos que apresentamos nesta edição do Festival, ao longo dos próximos meses de Julho, Agosto e Setembro. Fazemos o festival para si. Esperamos contar consigo!


José Alberto Ferreira

Director artístico e de programação do Festival Escrita na Paisagem