HOMENAGEM À JUDSON DANCE
Elliot Mercer com Márcio Pereira & amigos
USA/PT
DANÇA / PERFORMANCE
De 12 de Julho a 22 de Agosto
Arraiolos, Évora, Fundão, Sines, Viana do Alentejo
Mais informações sobre horários e locais:
info@escritanapaisagem.net
+351 266 704 236
Concepção - Elliot Mercer
Coordenação - Elliot Mercer e Márcio Pereira
Participantes - Mafalda Marafusta, Sofia Pereira, Sofia Ramos, Telmo Branco, Vanda Rodrigues
Elliot Mercer, bailarino e coreógrafo norte-americano, explora, no contexto do tema Re:play, que este ano guia o Festival Escrita na Paisagem, obras de coreógrafos e performers da era da Judson Dance, re:criando peças de Simone Forti, Trisha Brown, Anna Halprin, bem como scripts de Allan Kaprow, um dos mais exemplares nomes do happening e da performance. Em Portugal, Elliot Mercer é acompanhado pelo colectivo informal coordenado por Márcio Pereira, re:actualizando o programa de um dos momentos mais democráticos e re:novadores da história da dança e da performance no século XX.
Em Outubro de 2009 comecei a pesquisar e reinventar trabalhos de performance e dança produzidas originalmente entre as décadas de 1960 e 70. Apresentadas em espaços exteriores, estas peças exploram concepções alternativas de paisagens tanto publicas como privadas. Ao fazê-lo, estas criações desafiam os espectadores a questionar as suas relações com o espaço exterior, bem como a reconsiderar a forma como interagem com outras pessoas nestes mesmos espaços. O conjunto de trabalhos de performance seleccionados para este projecto representa um espectro variado de artistas com diversas formações, muitos dos quais não são sequer considerados coreógrafos ou artistas da área da dança. No entanto, escolhi referir-me a cada um destes trabalhos como “dança”, fundando a minha opção no quanto estas peças se focam num movimento de intervenção que pretende enfatizar, interromper, perturbar e questionar a estagnação e sedimentação de noções de local, espaço e coreografia social.
O conjunto de peças reinventadas neste projecto inclui: An Hour in Silence (1970) de Laura Dean, POSE (1969) de Allan Kaprow, Huddle (1961) e Scramble (1970) de Simone Forti, Leaning Duets (1970) e Roof Piece (1971) de Trisha Brown, Dress and Undress (1965) e Blank Placard Dance (1967) de Anna Halprin, Sweep Piece (1961) e Cut Piece (1964) de Yoko Ono, e Street Dance (1964) de Lucinda Childs, entre outros.
O processo de reinvenção de cada uma destas performances começa com um estudo detalhado da documentação que os próprios artistas produziram sobre os seus trabalhos em anotações publicadas, notas pessoais, fotografias de arquivo, textos de artista, vídeos, e/ou entrevistas. Usando estes documentos como moldura para o trabalho coreográfico, lanço-me na exploração das ideias e ideais destas peças. Escolhi adoptar o termo “reinvenção” para descrever o este meu trabalho de apresentação de peças de dança partindo de documentação histórica. Helen Molesworth, a curadora do Harvard Contemporary Art Museum descreve este conceito de uma forma que inspira o meu trabalho:
Não, literalmente, recriar, reapresentar, ou refazer, mas reinventar. Aos meus ouvidos reinventar coloca um desafio sobre a mesa. Não é uma repreensão à nostalgia. Uma reinvenção não pode ser uma imitação barata; não pode oferecer o passado como este uma vez foi. Uma reinvenção é uma forma de pensar o tempo e a história. Uma reinvenção não vê as actividades do passado como que enclausuradas num bloco de resina [como o âmbar], ou como que agarradas como lapas ao casco de um grande navio. Uma reinvenção solicita curiosidade. Uma reinvenção não é objectiva; é um apelo à interpretação. Uma reinvenção questiona o que as ideias do passado podem significar no presente, e quer que essas ideias sejam úteis, proveitosas, e até portadoras de um sentido crítico. Uma reinvenção é implacável; pede ao passado que seja mais do que uma história bem ensaiada, pede-lhe que se mostre e aja [play].
Baseando as suas intenções no manifesto de Molesworth, as minhas reinvenções propõem-se a questionar com curiosidade o quão relevantes são estas peças históricas para discursos sobre performance contemporânea e espaço público urbano.
Na sua introdução em Choreographing History, Susan Leigh Foster interroga o diálogo entre passado e presente que tem lugar neste processo de leitura e reapresentação de peças de dança. Foster argumenta que “os corpos históricos que se formaram na imaginação e na página escrita parecem ganhar vida própria.” Partituras de dança, “contagiadas pela energia dos seus autores e pela vitalidade dos corpos mortos, começam a percorrer o seu próprio caminho.” Foster atribui capacidade de acção ao texto escrito da dança, sugerindo que estes documentos são construídos de tal forma que não apenas convidam insistentemente, mas parecem pedir ao leitor que inscreva no seu corpo o movimento que neles se esconde.
Foster sugere ainda que à medida que os leitores inscrevem estes textos escritos nos seus corpos, a autoria daqueles textos muda. Historiadores, corpos históricos e textos históricos
reencenam uma espécie de processo coreográfico improvisado que tem lugar durante a pesquisa e escrita da história da dança: À medida que os corpos dos historiadores se familiarizam com os documentos sobre corpos do passado, tanto os corpos do passados como os do presente redefinem as suas identidades. À medida que os historiadores assimilam teorias de práticas corporais do passado, estas práticas começam a determinar a sua própria progressão. À medida que se procede à tradução do evento físico para texto escrito, as práticas de movimento e de escrita tornam-se cúmplices. E à medida que registos sobre corpos do passado encontram os corpos de obstáculos que moldam a escrita da história, novas formas narrativas emergem.
À medida que nos envolvemos com os textos históricos destas partituras de dança as nossas reinvenções parecem ganhar energia própria, com os textos a dirigir, influenciar, e assombrar activamente as nossas performances.
Baseado no manifesto de Helen Molesworth sobre a prática da reinvenção e no debate de Susan Leigh Foster sobre o diálogo entre corpos, narrativas e identidades do passado e do presente, concebi a minha própria definição de partitura de dança: um documento enigmático, um texto curiosamente performativo que contém e oculta segredos corpóreos, um convite escrito para a inscrição subjectiva de experiencias, identidades, vozes, inspirações e ideias do passado nos nossos corpos.
Se compararmos os registos documentais das peças originais e as minhas reinvenções obtemos um exemplo do conceito de arquivo e repertório, formulado por Diana Taylor. Em The Archive and the Repertoire: Performing Cultural Memory in the Americas Taylor esquematiza as diferenças por ela encontradas entre o conhecimento inscrito em arquivo e o conhecimento inscrito nos corpos. Para Taylor, o arquivo é constituído por objectos que resistem à mudança: objectos como “documentos, mapas, textos literários, cartas, vestígios arqueológicos, ossos, vídeos, filmes [e] CDs”. Estes objectos são incluídos no arquivo através de um processo de selecção, classificação e análise sistematizada. Juntos, estes objectos contribuem colectivamente para um corpo de conhecimento estático. Em oposição, o repertório está vivo, constituindo uma actuação da “memoria inscrita no corpo:… conhecimento efémero, impossível de reproduzir”. Através do meu processo de reinvenção trabalho no sentido de criar um repertório activo partindo do arquivo aparentemente estático da dança experimental das décadas de 1960 e 70. Este projecto tem por objectivo a reinscrição das memórias e práticas contidas por este arquivo nos corpos.
Pesquisar e reinventar estas peças influenciou e transformou a minha percepção, tanto dos artistas representados neste projecto, como do seu vasto conjunto de trabalhos. Como bailarino e investigador em dança tenho vindo a trabalhar com o arquivo da dança experimental desta era há alguns anos e consegui alargar muito o meu conhecimento destas peças através da sua reinscrição no meu corpo. O envolvimento activo e físico com estes textos moldou não apenas a minha compreensão sobre o que é este arquivo, como sobre o meu próprio trabalho, como artista e académico.
Para mim este projecto é um trabalho constantemente em processo que nunca estará completo. O arquivo da dança experimental desta era é extremamente extenso, constituído por numerosos artistas, cada um com uma longa história de criações. Tenciono desenvolver este projecto incluindo mais trabalhos de artistas nele já representados, bem como de Lawrence Halprin, Yvonne Rainer, Bruce Nauman, Steve Paxton, e Robert Morris, entre outros. Estes arquivos podem ser constituídos por objectos aparentemente estáticos, mas sob esse estatismo encontro uma força que me chama constantemente a reinscrever no meu corpo o conhecimento que neles está presente.
Elliot Mercer
Elliot Mercer, norte americano nascido na Califórnia, define-se como coreógrafo- e bailarino-arquivista. A sua investigação, prática e teórica centra-se nas possibilidades de re:criar e re:actualizar peças de performance e dança experimental americana produzida durante os anos 60 e 70 – uma investigação sobre as possibilidades de trazer o passado para o presente, arquivando-o nos corpos que o actuam. Foi precisamente este o tema que esteve no centro do seu trabalho final de mestrado, no Departamento de Performance Studies (Tisch School of the Arts / Universidade de Nova Iorque), que concluiu em Maio de 2010.
Márcio Pereira é Licenciado em Teatro pela Universidade de Évora e frequenta o mestrado em Arte do Actor na mesma Universidade. Participou em cursos de formação orientadas por Amélia Bentes, António Tavares, Clara Andermatt, Margarida Bettencourt, Margarida Mestre, Nélia Pinheiro, Peter Michael Dietz, Sofia Neuparth, na área da dança; e com Andreas Poppe, Cristina Carvalhal, Jean Paul Bucchieri, Miguel Seabra, Nuno Pinto Custódio, na área do teatro. Trabalhou com Guilhermo Gómez Peña (La Pocha Nostra) e Ana Borralho e João Galante; e no seu percurso como performer destaca os trabalhos próprios: Projecto Mãe (2008), Happy-Family (2009), Absolutamente Falso (2009/2010).