
Foto: Enrico Fedrigoli
Him
Fanny & Alexander
IT
Teatro
Palácio D. Manuel, Évora
29 de Setembro, 21h30
Duração:
75min.
M/12
5€ / 3€ (estudantes)
Não há quem não fique enfeitiçado pela magia do cinema. O poder das imagens transporta-nos para outro mundo, conquista-nos, rendemo-nos a ele da mesma forma que nos deixamos apanhar pelo poder do teatro e de outras artes.
Him da companhia italiana
Fanny & Alexander traz este poder para o palco – o poder da Arte – pertencendo este tanto ao actor quando este domina a cena, como ao filme quando prende o olhar do público. Him traz o cinema para o teatro. Em cena encontram-se apenas a projecção do filme
O Feiticeiro de Oz, de Victor Fleming, e um actor que dá vida a uma estranha personagem. Um ditador de bigode, cuja aparência nos lembra tanto uma conhecida personalidade negativa da história contemporânea – Adolf Hiltler – está ocupado a tentar fazer um
re:play completo d’
O Feiticeiro de Oz. Ele
re:actua o filme do princípio ao fim; dobra-o; dirige-o como se fosse o maestro de uma orquestra, e dá (a sua própria voz) a todas as personagens, e até à banda sonora.
Him (Ele) é exactamente ele, Hitler, inspirado pela escultura de Maurizio Cattelan, cujo título inspira o nome deste espectáculo. Na peça de Cattelan o “pequeno” ditador em tamanho real encontra-se ajoelhado, como que a pedir perdão. Neste espectáculo, a única personagem em palco exibe todas as suas capacidades na tentativa de dominar a cena. Ele quer dominar o filme, enquanto o
re:faz para nós. Mas o filme não é um adversário fácil de vencer, nesta batalha pelo poder. O ditador é obrigado a fazer escolhas durante o seu empreendimento megalomaníaco que é este
re:play-radical, de forma a conseguir estar a par do ritmo do filme. Mesmo que a imagem evocada em palco seja dramática, o público não consegue alhear-se do efeito de cómico e grotesco que é inevitavelmente produzido. Porque o poder deste ditador é falso, nulo; o filme não precisa do ditador, não é este que controla o que se passa em cena, pelo contrario, ele é controlado pelo ritmo do filme, que não consegue controlar. Este é um jogo de poderes e repetição de imagens cruzadas: nós vemos o filme, nós vemos a peça, o actor também é espectador do filme, nós somos espectadores de um espectador... Aqui joga-se com as relações entre arte e poder, bem como com o poder das imagens. E colocam-se questões: que formas tomam estas relações hoje? Como se alteraram (se é que se alteraram de todo) em comparação com aquele tempo histórico em que o poder político conseguiu manipular o povo ao ponto de conseguir instalar uma ditadura?
Em
O Feiticeiro de Oz, Dorothy e os seus companheiros de aventura vão em busca da intervenção mágica do Feiticeiro. Mas quando finalmente o encontram, descobrem que a sua magia não passa de um truque; o Feiticeiro não é mais do que um homenzinho que construir à sua volta uma ficção, fazendo todos acreditar que ele tem poderes mágicos – poderes que na realidade não possui. No final o Feiticeiro convence as outras personagens de que para terem o que querem, basta nomeá-lo, basta pronunciar a palavra: casa, coração, coragem, cérebro. Não há magia. O Feiticeiro não é mais do que um homem mortal com a capacidade de manipular as pessoas à sua volta através de uma capacidade de persuasão extremamente apurada: o poder é um grande ilusionista.
Fanny & Alexander descrevem esta “operação monstruosa”, mas sublinham que “as personagens [Dorothy e os seus amigos] são igualmente monstruosos pois aceitam [a situação]”. Porque o exercício do poder é sempre baseado num acordo, porque ambas as partes são responsáveis pela administração do poder. Historicamente há sempre os que controlam o poder e aqueles que consentem em que os outros controlem o poder.
É curioso observar o uso da cor n’
O Feiticeiro de Oz de Fleming, que foi um dos primeiros filmes a utilizar imagem a cores. A parte do filme que retrata a realidade é apresentada ainda a preto e branco, enquanto a cor é usada nas imagens do mundo de fantasia onde a protagonista Dorothy se acha, e no qual empreende a sua viagem em do Feiticeiro, na esperança que este a ajude a voltar para casa. O público para o qual Fleming produziu o filme, lia claramente a ilusão do sonho: preto e branco representava o realismo, a core era a fantasia. Para nós hoje, quando vimos este filme, a correspondência “realidade-preto e branco” e “cores-fantasia” não é assim tão clara; na verdade, tendemos a invertê-la. Hoje, lemos as imagens a cores como “realidade”, relegando as imagens a preto e branco para o “tempo histórico”, ou seja, o que já não existe. Adolf Hitler também já não existe e, por isso, esta estranha figura em palco evoca fantasmas do passado, que nos parecem inofensivos hoje. Mas, e se existir, hoje, um re:play disfarçado daquele ditador? Será que conseguiremos aperceber-nos da ilusão? Será que também andamos à procura de um Feiticeiro? Haverá, no mundo de hoje, algum maestro a tentar “enfeitiçar-nos” ao ritmo da sua batuta? O que acontecerá se repetirmos as experiencias passadas e nos deixarmos apanhar na ilusão? Perante tudo isto, qual é o papel da Arte? Qual a responsabilidade da Arte quando lança o seu feitiço sobre os seus espectadores? Vê-lo-emos em
Him, à medida que este mito clássico sobre ilusão é
re:presentado.
Fanny & Alexander são uma companhia de teatro italiana, fundada em Ravenna, em 1992, por Luigi de Angelis e Chiara Lagani. Entre 1993 e 1999 a companhia atravessou um período de desenvolvimento e crescimento. Ao criar espectáculos como “Cantico dei cantici”, “Con mano devota”, “Ponti in core”, “Sinfornia majakovskiana” (em colaboração com Teatrino Clandestino), e “Sulla turchinità della fata”, preparava-se para produções mais exigentes como “Requiem” (2001) e as várias etapas do projecto “Ada, Cronaca familiare” (2002-2004), inspirado no romance de Nabokov. A produção mais recente de Fanny & Alexander, “Heliogabalus”, conta a estória do jovem imperador romano que dá nome à peça.
As qualidades mais impressionantes do trabalho de
Fanny & Alexander são: a deliberada inversão dos códigos (um desafio constante à percepção do público) e uma cultura visual refinada. No entanto, estas características são secundárias quando comparadas com a atenção e análise rigorosa que dedicam à linguagem – um aspecto que atravessa todo o trabalho da companhia, culminando em “linguagens impossíveis”. O “duplo” é um elemento igualmente recorrente no trabalho de
Fanny & Alexander – e o projecto que a companhia traz este ano ao Festival é disso exemplo.