Pele e terra

Sílvia Pinto Ferreira
encenadora, escritora e investigadora de dramaturgias contemporâneas

 


[ foto: João Bragança]



Daqui Da terra De um pedaço de mundo De um latifúndio da memória

Escava-se um buraco rega-se até transbordar
Um pequeno monte à beira de um lago profundo de águas lamacentas e paradas - Papas de terra borbulhantes Creme divinal
Uma mão mergulha na água e salpica o pequeno monte A outra revolve As duas mãos amassam até ficar no ponto - Massa térrea
Um bolo - húmido castanho brilhante – acabado de enformar – perfeito – candura dos sentidos

desenforma
mexe
remexe
e volta a enformar
e a desenformar
e amassa
e enrola
e calca
e arredonda
e

Uma tarte polvilhada de poeira - toca ao encanto

parte-se
reparte-se
reúnem-se as partes

Rola a amálgama entre as mãos de um lado para o outro espalma-se divide-se em pequenas bolas berlindes anafadas que rebolam pelo chão
Um campo de bolinhos areados a torrar ao sol
Bolinhos secos – torrões doces

Quem não comeu da terra não despertou o âmago do paladar
Áspera Pedregosa Legítima
alimento visceral

ÍNDICE CRÓNICAS

008 FAUSTO CRUCHINHO
As hortas do cinema português

007 CARLOS AUGUSTO RIBEIRO
Três linhas paralelas na paisagem

006 MIGUEL MANSO
As tias mortas

005 ELLIOT RAIN
Tal e coisa e os cinco (re)sentidos

004 CARLOS ALBERTO MACHADO
Ponho palavras na minha cabeça

003 SÍLVIA PINTO FERREIRA
Pele e terra

002 José Rodrigues dos Santos
Juncadas de folhas e de flores

001 LUÍS CARMELO
A agricultura,o agenciamento das culturas e a última morte da agricultura