Ponho palavras na minha cabeça

carlos alberto machado
Professor, investigador,
dramaturgo

 




1. CRIAÇÃO

PRIMEIRO ANCIÃO: Ponho palavras na minha cabeça. Uma, duas. Lentamente. Olho a terra seca. Por entre trilhos onde um dia já houve água encaminho uma, duas palavras. Um caminho. Um mundo possível.
Ponho palavras na minha cabeça. Desenho-lhes trilhos. Explosões químicas. Fulgurações eléctricas. Mapas de fome. Possibilidades de alimentos.


SEGUNDO ANCIÃO: Os teus pés não marcam o chão. Apenas uma leva poalha digital. Nenhum caminho para te seguir. O teu alimento virá apenas por ti.
A cor da terra cega-te. Desenhas círculos cegos. Tornas-te o centro cego desta terra queimada pelo sol. Uma, duas palavras são apenas pistas por entre palavras ainda longínquas.


TERCEIRO ANCIÃO: Uma vez a terra era muita e não se via o fim. Era o tempo em que as serpentes ainda desenhavam mapas. Veio a água do princípio do universo e as serpentes tornaram-se finas redes. Os homens já lá estavam sem saber. Rodeados de terra, as sementes futuras nas mãos fechadas. Abri-las e deixar as sementes. Fechá-las e colher os frutos.
Pode ser esta a maneira de começar o nosso mundo. As palavras começam os mundos. Este pode começar assim – uma terra imensa e vazia abandonada pelas serpentes para os homens nela criarem terra desdobrada em filhos e alimentos. Poucos.



2. MUNDO


SER #01: Eu digo-te: vai aprender a ver a terra, vai aprender a unir-te com ela. Vai aprender a seres terra.

SER #02:
Eu digo-te: vai aprender os movimentos que fazem da terra o teu ganha-pão. Vai esforçar-te para seres o homem que ainda não és.

SER #03: Eu digo-te: vai cheirar a terra e os frutos. Vai aprender o movimento dos teus braços em volta do trigo alto. Vai aprender a vergar a coluna até seres máquina.

SER #04: Eu digo-te: vai aprender a não olhar o sol. Vai aprender a seres apenas silhueta negra na imensidão amarela e brilhante.

SER #05: Eu digo-te: vai aprender a seres muitos. Vai aprender a dor e a cantar.


3. PESSOAS EM BUSCA (estórias) [excertos]


MULHER DE NEGRO NUMA JANELA: Falam muito alto, estes homens, quando vêm do trabalho nos campos e trazem nos bolsos menos do que quando partiram. Um diz: Lá está a Ti Gerúndia à janela sem fazer nada, já lhe devem doer os cotovelos! E os outros riem, coitados. Amanhã outro homem há-de repetir isto, ou parecido. O meu homem que Deus tem talvez dissesse o mesmo quando via uma viúva à janela. Eles vão aos campos trabalhar por quase nada e gastam-se por quase nada, muito trabalho deitado fora, às vezes nem um punhado de trigo nasce do seu trabalho. Eu gosto de estar aqui, a juntar forças para suportar os anos de viúva de um homem que morreu a trabalhar por quase nada. Aos que ainda acreditam na terra-mãe ofereço um dádiva à Senhora de Aires. Aos jovens que já desistiriam nem um milagre os salvará. Já os meus avós sabiam disto. Gosto da minha janela, da madeira dela que quase faz parte de mim. Gosto. E os homens não sabem por quê.

[…]

MULHER DO CABELO LONGO: Quatro mil duzentos e sessenta e oito dias. Neste tempo pensei-me cada dia mais perto de Ti, meu Deus, mas em cada dia foi também maior o sentimento de nunca conseguir chegar a Ti. Cada dia de desejo por Ti, meu Deus, sofri na pele da minha cabeça o crescimento de cada milionésimo de milímetro de cabelo por Ti, em direcção a Ti. Quanto mais o meu cabelo me cobriu as costas quase até aos pés, mais alto subiu o meu amor em Tua direcção. Pensei sempre que o meu enorme pecado foi tão grande que nenhum sacrifício, nenhuma oferenda de mim poderia ser bastante para obter o Teu perdão, para conseguir o Teu amor. Agora que o meu longo cabelo de quatro mil duzentos e sessenta e oito dias jaz aos meus pés cortado pela Tua vontade Divina sei, sei, que nunca o meu cabelo poderia crescer em direcção ao Teu perdão, ao Teu amor, meu Deus!

[…]

HOMEM-BAILARINO: Talvez este seja o meu último movimento. Pequeno. Insignificante. Quase nada. Um insignificante gasto de energia. Este dedo da mão, este pequeno dedo da minha mão esquerda a separar-se lentamente do que lhe está mais próximo, lentamente. Não… Mais uma pequena peça partida deste pobre corpo… Alimento desperdiçado… Por cada pedaço de comida a mais, mais uma peça partida desta máquina demasiado imperfeita para ser música…


Carlos Alberto Machado, Évora, 16-24 de Fevereiro de 2006

ÍNDICE CRÓNICAS

008 FAUSTO CRUCHINHO
As hortas do cinema português

007 CARLOS AUGUSTO RIBEIRO
Três linhas paralelas na paisagem

006 MIGUEL MANSO
As tias mortas

005 ELLIOT RAIN
Tal e coisa e os cinco (re)sentidos

004 CARLOS ALBERTO MACHADO
Ponho palavras na minha cabeça

003 SÍLVIA PINTO FERREIRA
Pele e terra

002 José Rodrigues dos Santos
Juncadas de folhas e de flores

001 LUÍS CARMELO
A agricultura,o agenciamento das culturas e a última morte da agricultura