Tal e coisa
e os cinco (re)sentidos


Elliot rain
Elliot Rain é pseudónimo de Emílio Remelhe, assistente convidado na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Desenvolve actividade no âmbito das artes plásticas, da ilustração e da literatura. A escrita é assinada por diversos pseudónimos estagiários e inclui a narrativa para a infância (Eugénio Roda). Escreveu o texto do livro “O Quê Que Quem – Notas de Rodapé e de Corrimão”, recentemente distinguido com o Prémio Nacional de Ilustração 2005 (ilustrador Gémeo Luís).

 


[foto: Rui Mendonça. fotografia. 2006]



O Homem que Cheirava Tudo e Mais Alguma Coisa tinha o nariz irremediavelmente empinado. Era, pois, natural que o metesse onde não era chamado e que disso fosse acusado com alguma injustiça. Mas não era qualquer um que provava a sua culpa ou a sua inocência.

O Homem que Provava Acima de Tudo a Torto e a Direito tinha naturalmente o paladar apurado. Engordava só de provar o que lhe apetecesse. Provava qualquer coisa e o contrário, com uma coerência fácil de engolir a quem apreciasse o agridoce. Só visto!

O Homem que Só Acreditava no que os Seus Olhos Viam contemplava a natureza humana horas a fio, procurando entender a paisagem. Comia naturalmente com os olhos, julgando a dieta visualmente equilibrada. Fruto de boa educação à vista desarmada, aprendera a ver sem mexer com as mãos.

O Homem que Deitava Mãos à Obra tinha tudo à mão de semear. Parecia não ter mãos a medir mas era visto muitas vezes a contar pelos dedos da mão esquerda os da direita e vice-versa: era uma história qualquer, que contava a si próprio, todos os dias, antes de deitar as mãos à cabeça.

O Homem que Ouvia Falar Disto e Daquilo
julgava ter ouvido absoluto. Raramente falava e raramente não se falava dele. Uns garantiam que isto lhe entrava por um ouvido, outros que aquilo lhe saia pelo outro.
Entre os que davam ouvidos a qualquer coisa, era mais conhecido por Aquele para Quem Tudo é Música.

O Homem que Era Não Sendo distinguia-se pelo sentido apurado da oportunidade de ser assim. Não era um ser qualquer mas o tal qual quer. Mantinha actualizada a faculdade de optar por não escolher. Orientava-se pelo mapa (inodoro, incolor, insonoro, insonso e intacto) do seu território (indolor) onde podia andar descalço sem o saber. Desenvolvera mecanismos para garantir o funcionamento contínuo dos princípios em prejuízo dos fins e detrimento dos meios.


ÍNDICE CRÓNICAS

008 FAUSTO CRUCHINHO
As hortas do cinema português

007 CARLOS AUGUSTO RIBEIRO
Três linhas paralelas na paisagem

006 MIGUEL MANSO
As tias mortas

005 ELLIOT RAIN
Tal e coisa e os cinco (re)sentidos

004 CARLOS ALBERTO MACHADO
Ponho palavras na minha cabeça

003 SÍLVIA PINTO FERREIRA
Pele e terra

002 José Rodrigues dos Santos
Juncadas de folhas e de flores

001 LUÍS CARMELO
A agricultura,o agenciamento das culturas e a última morte da agricultura