Três linhas paralelas na paisagem

Carlos Augusto Ribeiro
Artista plástico, professor e investigadorUma crónica escrita numa atenta leitura do tempo presente, a lembrar que o tempo dos Festivais é também o tempo de olhar em volta e interrogar o mundo.


1. Um museu berlinense dispõe de um acervo de materiais e de dispositivos que se destina aos visitantes que queiram perceber e recordar – experimentar recordando – o dia-a-dia de uma Alemanha ‘ausente’ da nova Alemanha reunificada. Oriundos da ex-República Democrática Alemã, imagens e objectos obsoletos por intermédio desta circunstância institucional adquirem um novo lugar (implicando novos usos e significados); e, ainda, a relação estabelecida entre eles, enquanto estilhaços resgatados de uma realidade histórica extinta, sustenta uma reconstrução conjuntural desse tempo.

A Alemanha do presente surge do facto da reconciliação de duas das suas metades consideradas, a nível político e ideológico, inconciliáveis entre si. A cisão da Alemanha – e a divisão do mundo em dois blocos – foi assinalada pela realidade do muro. Uma linha de betão irrompeu na paisagem para barrar o Leste do resto do mundo. Uma metade do mundo militou contra a outra metade. Cada uma delas encontrou nessa separação real o apoio e os motivos necessários para se manter unida, confiante e coesa.

A queda do Muro de Berlim – e, também, a derrocada dos regimes socialistas – alimentou a esperança de uma reunificação alicerçada numa relação de comunicação aprofundada entre a Europa ocidental e a Europa do Leste. Desaparecia a divisória amaldiçoada – que opunha num mesmo território geográfico e histórico duas visões – e com isso parecia que a vontade de reunificação se realizaria de imediato no quotidiano.

Com a queda do muro, o inimigo comum desapareceu. Doravante, na metade tida por perdedora, as estátuas e monumentos dos velhos totalitarismos são varridas e desmanteladas. No entanto, como estão desaparecidas as velhas imagens e como os altares que as albergavam continuam vazios – na realidade e metaforicamente –, os vestígios dos velhos regimes teimam em permanecer na corrente dos dias. Dir-se-ia que o muro – uma mera barreira física facilmente demolível – se interiorizou. Ao contrário do que demonstram os seus cacos dispersos por colecções, ele não desapareceu realmente. Ele espera os homens numa outra dimensão: tornou-se invisível.

O muro tornou-se invisível; apela a uma geografia invisível que acaba por afectar a maneira como são vistos os lugares. Para aqueles que são nostalgicos da vida na Alemanha desaparecida, resta a vontade e a diligência dos dirigentes do museu que lhes propõe – a eles e, claro, aos curiosos – a mostra da vida passada, pretensamente integral e garantidamente desprovida da protecção e da mediação proporcionada pelas vitrinas.

2. Sophie Ristelhueber apresenta-nos nas suas fotografias de grande formato, Fait (1992), paisagens desertificadas de qualquer vestígio de vida. As vistas aéreas e as vistas rentes ao solo do deserto do Kuwait apresentam-se sem indicadores de escala, sem cadáveres e sem traços de combate. Nenhuma notícia de vivos. Apenas ruínas de construções confundidas com pedras, rochas e sedimentos numa extensão ilimitada. Visões a partir do céu, estas imagens estão despidas de narrativa e de gente. Paisagens devastadas – qual escrita rasurada – pela tecnologia da guerra. Imagens totalmente abstractas e silenciosas confrontam-nos directamente com o rosto desfigurado da terra, tornada uma superfície onde as marcas da actividade dos homens e da história se confundem (misturam) com a actividade da matéria e da própria Terra. Mostra-nos o acontecido apontando-lhe a câmara mas o que nos mostra parece já estar a ser escondido pelo tempo e pela areia do deserto. Estas imagens parecem corresponder à exigência de Pollock de que (na sua pintura) a necessidade de representar algo deva ser acompanhada da necessidade de o esconder embora não totalmente.

3. Mais histriónicos parecem ser a maioria dos novos diários de guerra elaborados pelos soldados americanos no Iraque. Vídeos e mais vídeos (dos mais diversos tipos) tendem a ser parcos de palavras e sem indicação de contexto, desprovidos de tudo aquilo que nos poderia ajudar a perceber, ou a saber, o que aconteceu antes e depois dos acontecimentos de guerra.

A história é normalmente entendida como implicando a conexão de acontecimentos através do tempo. Assim, entre dois acontecimentos considerados, à sensação inevitável de mudança de um acontecimento para outro acontecimento acrescentar-se-ia um efeito cumulativo de mudança que seria qualitativo.

Desprovidos de história, estes vídeos distinguem-se daqueles diários cuja finalidade é dar ordem e coerência a uma série de acontecimentos. O débito ininterrupto das imagens de guerra – provenientes de câmaras de infravermelhos instalados em tanques ou em helicópteros, de dispositivos de visão nocturna, de câmaras de filmar, de telemóveis e de outros dispositivos de tecnologia digital –, aliado à gula de ver, parece bastar como incentivo. Quanto ao destino destas imagens, talvez sejam um veículo de escape para aqueles que desejam apartar-se do lugar no tempo que lhes acontece (coube) em redor. A realidade virtual parece substituir a actualidade e transformar-se em actualidade. Parecem jogar na realidade um jogo de guerra para computador. Para quê palavras? Os vídeos são editados com muita música e com exclamações entusiastas e breves de operadores de câmara – um mero «Yes!» ou «Boa!» – a acompanhar as explosões dos alvos. Os diários de guerra tornaram-se, na realidade, video-clips. Não parecem ser feitos para documentar a guerra ou contar a experiência dos próprios soldados (a sua história). Sem enredo, parecem reduzir-se a um único objectivo a atingir: enfileirar os alvos e mandar tudo pelos ares. Neles a constatação de Joseph Beuys encontra, quanto a nós, a mais sombria das ilustrações: “(...) nous vivons à une époque des explosions. Toute la tecnologie est explosive.”

Carlos Augusto Ribeiro
Agosto 2006

ÍNDICE CRÓNICAS

008 FAUSTO CRUCHINHO
As hortas do cinema português

007 CARLOS AUGUSTO RIBEIRO
Três linhas paralelas na paisagem

006 MIGUEL MANSO
As tias mortas

005 ELLIOT RAIN
Tal e coisa e os cinco (re)sentidos

004 CARLOS ALBERTO MACHADO
Ponho palavras na minha cabeça

003 SÍLVIA PINTO FERREIRA
Pele e terra

002 José Rodrigues dos Santos
Juncadas de folhas e de flores

001 LUÍS CARMELO
A agricultura,o agenciamento das culturas e a última morte da agricultura