Festival Escrita na Paisagem 2012

Cosmopolíticas

Se o mundo todo é ainda um palco, como queria Shakespeare (em As you like it), a verdade é que ele é hoje um palco decididamente global e complexo onde, mais do que sermos ‘meramente personagens’, nos confrontamos com o imperativo de sermos actores participantes e activos nos cenários globais. É nessa direcção que vamos com a 9ª edição do Escrita na Paisagem, festival de performance e artes da terra, subordinado ao tema cosmopolítica.

Que significa cosmopolítica? Desde logo a afirmação de uma dimensão global que, não se confundindo nem com a vagueza do exotismo ‘cosmopolita’ (ou a sua sofisticação internacionalista) nem com a projecção de um bem universal (com em Kant, ao idealizar uma comunidade movida pelo bem comum e pela paz), procura atender à circunstância multi-cultural e plural das comunidades, à diversidade das escalas de pertença e de identidade dos sujeitos (entre o local e o global, entre o ‘aqui e agora’ e as mobilizações globais), aos cruzamentos (mashups, mixings) de influências que nas linguagens da arte e da cultura tão fortemente encontram expressão.

Atento ao apelo ético, político e cultural do tempo presente, o palco que o festival configura não pode, pois, deixar de ser cosmopolítico, de se projectar em ‘lentidão e interstícios’ (como propõe Isabelle Stengers), de se verter na inclusão de alteridades (como sugere Walter D. Mignolo), de acolher o diverso, o estranho, o emigrante, o marginal, o profano, o insano, o subalterno, enfim, o que o pensamento pós-colonial e a teoria crítica apontam como lugares de tensão, de assimetria, de negociação e de poder, em suma, de política. De cosmopolítica. Não parece haver melhor tempo para este debate no contexto europeu, como parece confirmar Daniel Innerarity em O Novo Espaço Público (Lisboa, Teorema, 2006), ao afirmar que «(…) uma Europa cosmopolita é hoje a última utopia política efectiva». A isso vamos.

José Alberto Ferreira
Director Artístico do Festival Escrita na Paisagem