O auto-intitulado “ovni do cinema português”, Tiago Pereira, acompanhado pelo musico Eduardo Vinhas e pelo Colectivo SophieMarie, aterram no encerramento do Festival Escrita na Paisagem para apresentar Equação. Celebramos de uma só vez, o próprio conceito do Festival – o vínculo que mantém com a paisagem Alentejana – e o tema deste ano, re:play, com um trabalho que constrói a ponte perfeita entre ambos, sintetizando-os.
Com Equação, um espectáculo multimédia que constrói uma narrativa não linear sobre impressões e tradições, Pereira, Vinhas e SophieMarie abordam o património imaterial da região do Alentejo, re:inventando-o numa montagem criativa, numa sobreposição e justaposição de pensamentos, registos, documentos audiovisuais, lendas, contos, práticas rituais e paisagens sonoras relativas ao arquétipo feminino na tradição musical alentejana. Estes materiais e conceitos são re:organizados e re:pensados na articulação com a contemporaneidade, materializando-se num espectáculo sensorial e transdisciplinar. Uma experiência pós-cinemática que dissemina a linguagem visualista em tempo-real potenciando a re:actualização do passado.
Um espectáculo através do qual o Festival re:afirma, no seu encerramento, o ponto de vista a partir do qual escolheu ler e escrever a paisagem em 2010: re:play – a re:petição, re:invenção e re:criação como o cerne da criação artística contemporânea.
Tiago Pereira nasceu em Lisboa. Os anos 80 atravessaram-lhe a adolescência, vivida no contexto do urbano-popular Bairro Alto. O seu trabalho distingue-se por uma abordagem particular da tradição oral portuguesa: ele re:colhe para re:criar, para desconstruir, e não para re:produzir acriticamente. A sua missão é sobretudo contribuir para uma “alfabetização da memória”, porque "as pessoas são analfabetas em relação a recolher e a terem memória e é preciso ensinar a fazer recolhas, a criar o bicho de recolher as suas coisas em vez de terem vergonha dos sítios onde nasceram e de onde são". Tiago Pereira empenha-se em libertar a tradição, preservando-a sem a sufocar. “Tradição oral é transmitir o que se vive, passá-lo de geração em geração, contaminando-se, alargando-se e atingindo combinações infinitas”.
Em 1998, o Alentejo provoca o seu primeiro video-documentário musical “Quem canta seus males espanta”, e desde aí parte à descoberta da ruralidade. E não pára: em 1998 recebeu o prémio de Melhor Realizador nos Encontros de Cinema Documental da Malaposta; em 2003 foi galardoado com o Grande Prémio do Juri no Festival Ovarvídeo; em 2006, ganha o Grande Prémio Tóbis para a Melhor Curta Metragem Portuguesa no Doc Lisboa; em 2007 recebe o galardão para Melhor Filme Etnográfico no Dialektus Festival, em Budapeste. A par de tudo isto, resta mencionar que Tiago Pereira foi várias vezes seleccionado em diversos festivais europeus e participou em inúmeros outros projectos, desde a animação infantil aos Live Acts.
Eduardo Vinhas, é um dos três sócios de Golden Poney Studio, que partilha com João Osório e Rodrigo Alfacinha, e é membro do duo Musgo, do qual Alfacinha também faz parte. Na última década, Vinhas e Alfacinha têm tocado juntos, primeiro dedicados ao indie-rock e, mais recentemente, à música electrónica.
Eduardo Vinhas tem colaborado com Tiago Pereira em vários projectos; o mais recente, Fireworks, foi apresentado no dia 24 de Abril de 2010, na Casa da Música, no Porto.
Colectivo SophieMarie junta Sophie Pinto, Filipa Leão, e Vanda Cerejo, três actrizes licenciadas em 2007 pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa. A sua mais recente criação, Ensaio Paralelo, baseia-se numa única regra: as duas actrizes que integram o elenco da peça devem ensaiar separadamente, encontrando-se apenas no final do processo. Esta criação foi apresentada recentemente no Espaço Nimas, em Lisboa