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2010 > ÚLTIMAS CEIAS > ISTO É O MEU CORPO (1979 / 2010) (PT)
 
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Isto é o meu corpo (1979-2010)
Noémia Cruz
PT
Escultura

“Isto é o meu corpo” tem a sua génese numa fotografia dum político, de mãos postas, num comício dum partido democrata cristão, onde se gritavam frases apologistas de políticas de extrema-direita. Está-se em 1979, a luta pela emancipação da mulher é uma constante no nosso, meu, quotidiano: último ano do curso de escultura, o tema impõe-se. A política e a igreja de mãos dadas contra a dignificação da mulher: subverter a “Última Ceia” é a minha proposta, cuja concepção formal surge da forma mais inesperada: como técnica paramédica, num laboratório de anatomia patológica, dava assistência ao médico na análise macroscópica das peças anatómicas. O médico corta uma mama às fatias como se corta o pão: a forma do pão transfigura-se e Cristo oferece fatias duma mama (mutilação do corpo? ou do próprio desejo?), mas que é também um doce conventual. Instalou-se a ambiguidade/subversão: o corpo como objecto votivo mas sobretudo como objecto de desejo? “Isto é o meu corpo”, mas de quem é o corpo? Da mulher, oferecida como repasto duma sociedade decadente, mas também como símbolo de vida e redenção? Ou do próprio Cristo que se quer assumir no feminino?

“Isto é o meu corpo” é exposta pela primeira vez em 1979. Uma mão é roubada; manifestação de desaprovação ou de aprovação? Em 1980 fica parcialmente destruída um incêndio do meu estúdio. Re:feita, passados que são trinta anos sobre a sua concepção, re:nova-se, numa rejeição do falso moralismo duma sociedade capada por um deus ressabiado, porque o homem tomou consciência da sua própria sexualidade na descoberta do erotismo, celebrando assim a vida em todo o seu esplendor.

Noémia Cruz, 8 de Maio de 2010


Noémia Cruz nasceu em 1948 em Santana da Serra, Ourique.

Em 1980 concluiu a licenciatura em Escultura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa.  Exerce actividade docente no ensino básico, desde 1976, em Artes Visuais. Entre 1980 e 1998 trabalhou com o escultor Jorge Vieira em projectos de escultura, com especial destaque nas técnicas de terracota e engobes. Com este escultor acompanhou e apoiou projectos de divulgação do trabalho de desenho e escultura, bem como, do processo de execução da sua obra pública, designadamente: dos monumentos alusivos ao 25 de Abril em Grândola e Almada; memorial ao escultor Jorge Vieira, em Beja; monumento ao mármore, em Estremoz.

Foi consultora artística do Museu Jorge Vieira, desde 1995 até 2003, altura em que integra a direcção artística deste museu e da Galeria Municipal dos Escudeiros – Beja. Participou entre 1990 e 1993, como artista plástica, no Projecto de Sensibilização à Criatividade promovido pela Câmara Municipal de Lisboa. Em 2001 participa no atelier experimental de construções de um forno de vidrado a sal, nas oficinas do Convento em Montemor-o-Novo.

Participa em exposições colectivas desde 1977 e expõe individualmente desde 1987, encontrando-se representada, a nível nacional, em colecções públicas e privadas.